sábado, 12 de fevereiro de 2011

Clube de Espiões

     Três crianças como qualquer outra criança saudável: coradinhas, cheirosinhas e criativas. Brincando de pique-esconde, desvendaram todo o quintal. Conheciam cada espacinho e dificilmente errariam o palpite caso colocadas em algum lugar dali de olhos vendados. Só tropeçavam durante a cobra-cega (ou cabra-cega, sempre discutiam sobre isso) se algum adulto modificasse alguma coisa; uma caixa, uma vassoura fora do lugar, a mangueira desenrolada pelo chão.
     A mais velha, 9 anos e única menina, apresentou Chiquititas aos outros dois (8 e 7 anos cada um). Não demorou muito mais que dois meses, e os três já tinham tudo planejado na cabeça. Usando o verso de uma folha de tabuada, a mais velha desenhou o mapa do quintal e os outros dois copiaram usando um kit de desenho. Fugiriam de casa na noite seguinte, logo depois do jantar, quando seus pais levariam mais tempo para notar que, de repente, o ambiente tinha ficado quieto.
     Esvaziaram a mochila da escola e encheram-na de coisas realmente úteis para a jornada. Garrafinha de Yakult, Trakinas, Passatempo, um lápis e uma borracha ("sei lá, né!"), sabonete, toalha de mão, lanterna do carro do pai de alguém, uma almofada, uma tartaruga e um coelho de uma orelha em pé e outra caída.
     - Você não vai levar esse coelho.
     - Por quê não?
     - Porque ele tem uma orelha em pé e outra caída. Ele tem cara de suspeito.
     - Então você não leva essa sua tartaruga cascuda aí. Se ela roubar alguma coisa e levar pra dentro do casco dela, a gente nunca mais pega de volta.
     Tudo pronto. Jantaram frango com arroz, feijão e tomate. A mais velha lia o mapa, enquanto o gordinho apontava a lanterna pra onde ela indicava. Sobe aqui, desce ali, vira à esquerda mais à frente, acabaram no telhado de casa, e dali descobriram que podiam andar pelos telhados de quase toda a vizinhança.
     Se podiam, fariam. Resolveram ir pra casa da direita porque... "sei lá, né!", e descobriram uma telha solta.
     - É um alçapão!
     - Não é não, é um porão.
     - Ai, burro. É um sotão.
     - Acho que é porão.
     - A gente pode morar aí dentro.
     - Arranca a telha!
     - Aqui. Arranca essas também.
     - Pronto, eu passei! Sou mais gordo, então vocês também passam!
     - Legal. Esse pode ser o nosso clube.
     - Clube do Alçapão...
     - É sotão.
     - Porão!
     - Clube de Espiões. Bota isso no mapa.
     Duas horas depois, eles estavam de castigo no quarto. Enquanto ouviam o vizinho que gritava com os pais lá na sala, pensavam em quando fugiriam outra vez. O clube de espiões não poderia acabar...
     Mais de dez anos depois, cada um tendo tomado o próprio rumo há algum tempo, tendo cada um vivido coisas completamente diferentes, quase não se reconheceram durante a festa de 70 anos da avó. Um deles tinha até um sotaque meio diferente de... sei lá, né.

Crianças aleatórias em Ipanema
Câmera: LC-A+
Filme: Lomography ISO 100
O "Clube de Espiões" realmente existiu. Embora não tenha sido "fundado" como descrito no texto, terminou de forma bem semelhante.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quando não toca Radiohead

      O celular tocou, mas ela estava no banho. Com a espuma do shampoo descendo pelos olhos, era impossível enxergar o visor do celular, mas de uma coisa ela teve certeza: o número era desconhecido. Os registrados na agenda faziam tocar Radiohead.
      Mesmo excluindo as impossibilidades óbvias, qualquer pessoa do mundo poderia ter digitado o seu número, por engano ou não, e estar do outro lado da linha, nesse exato momento, ouvindo o tom de chamada. Mas ela não pensou nisso. Ela não pensou sequer em quanta gente não sabe bloquear o teclado de seus celulares sem flip.
      Dentre as milhares de possibilidades - ela tinha um histórico de popularidade que começava no pré-escolar - só uma pessoa lhe vinha à memória: o melhor beijo da sua vida. Ele poderia estar lá, calado, à espera somente do seu "alô". Ela atenderia, ele diria que seu celular havia descarregado e o carregador fora roubado na noite retrasada enquanto ele pedalava pra casa. Ela responderia que tudo bem, e o movimento dos seus lábios se abrindo num sorriso seria ouvido do outro lado da linha.
      Ou ela não atenderia e ele, insatisfeito, lhe mandaria flores com um cartão e seu poema preferido. Assim que ela terminasse de ler, jogada no sofá com um sorriso bobo no rosto, alguém mexeria as cortinas da sua janela, e o melhor beijo da sua vida lhe faria uma surpresa entre brisas e pedaços de seda.
      O toque parou, e ela se assustou. Passou a toalha como pode em volta dos cabelos e, enquanto se convencia de que a combinação de números que ela agora via na lista de ligações perdidas tinha tudo a ver com o melhor beijo da sua vida, o celular tocou outra vez. E não tocou Radiohead. Hesitou, depois esperou ansiosamente durante mais três toques e atendeu.
      Mas antes de borboletas invadirem seu banheiro e flores misteriosamente brotarem, antes da música romântica começar a tocar e dezenas de pessoas invadirem o quadro, todas dançando os mesmos passos num musical de tirar o fôlego...
      - Clarissa?
      - Sou eu...
      - Aqui é Renata, da Cavendish. Tô ligando pra avisar que chegou a nossa nova coleção, que está linda e passeando entre tons de branco e magenta, e que amanhã às quatro horas vai ser o lançamento oficial da coleção e você está convidada.
      - Ahn, tudo bem...


Dupla exposição em Ipanema
Câmera: LC-A+
Filme: Lomography ISO 100

A partir de agora, sempre que possível, todos os textos serão acompanhados por uma fotografia de minha autoria.

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