sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O meu caderno

    Ter um caderno de pensamentos pode ser a sua melhor decisão se você for daqueles que gostam do "longo prazo"; assim como quem se matricula em pilates em vez de malhar e tomar bomba, ou da mesma forma como quem fotografa com filme em pleno século XXI, demora um mês para terminar o filme e mais algumas semanas para revelá-lo. Coisas para quem quer romantismo na alma.

    Comprei o meu caderno no mesmo dia em que aprendi a usar a minha terceira lomo, enquanto voltava da aula de pilates. Completamente despautado, para fugir dos deadlines de todo dia; para permitir que o humor domine o corpo e desenhe morros e ladeiras com palavras. Como é satisfatória, aliás, a liberdade de mudar da forma para o corsivo sem nenhum aviso prévio. E de repente aparece uma fênix colorida nas entrelinhas.

    A capa é verde-abacate-maduro, mas fica negra no escuro. Assim como todas as páginas. Mas ao menor sinal de luz e folhear retrocedente, atinge-se o passado de um jeito como nenhum outro. Subjetivo, embora gritante. Uma prova curiosa de como alguém é capaz de mudar, significativamente, em apenas um ano. Ótimo para relembrar o próprio valor e o de algumas outras pessoas também. Ter um caderno de pensamentos é inspirador. E quem sabe possa fazer alguma diferença na sua vida.

Quando uma rua alagada faz a felicidade do dia
Paraty, D90

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Minha vida é ficção

Eu queria poder fazer tudo o que imagino. Colocar todos esses devaneios de janela de ônibus em prática, essas coisas que só parecem plausíveis em livros de fantasia contemporânea. Claro, não sou boba a ponto de me imaginar num vestido de princesa, conversando com animais e aceitando frutas de senhorinhas esquisitas.

Princesa é uma coisa que eu não entendo, aliás. Ou é a Kate Middleton ou uma visão machista sobre o ideal feminino. Não me senti confortável na minha festa de 15 anos, e posso dizer isto agora porque meu pai já se recuperou psicologicamente do estresse financeiro.

Eu sei lá por que sou assim. Porque prefiro ser perfeita com defeitos a ser a perfeitinha imaculada. Meus amigos bacharéis em psicologia podem avaliar melhor, mas digo que isto até pode ser trauma de infância. Agora, aos 22 anos, eu quero sujar meus pés de lama, quero rolar na grama, ir à praia de madrugada, pegar uma gripe de satisfação depois de tomar banho de chuva com alguém especial. Quero ter coragem pra dizer que amo. Ou melhor, quero ter coragem pra me deixar amar, por mais copiado do senso comum que isto possa parecer.

Eu quero poder aumentar meu tempo livre grudando folhas em branco na minha agenda. Pra poder passar mais tempo com o meu cachorro, que já está velhinho, com a minha avó, que também já está velhinha, e com minhas ideias, que vêm e vão desafiando a luz em prova de 100 metros rasos.

E seria bem interessante se qualquer dia desses eu encontrasse um gado miniatura com asinhas de borboleta.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Em nenhum idioma

Acordou com o pé direito no chão e o esquerdo no sonho. Não lembrava do que tinha sonhado à noite, mas alguma coisa em seu peito lhe dizia que lembrar não seria um mau negócio. Ultimamente vinha acordando assim, com olhos que enxergam as coisas belas ainda mais belas e lábios que sorriem para as coisas feias com a confiança de que tudo pode mudar.
Nem se importava mais por usar shampoo para cabelos lisos em seus cabelos cacheados. Todo o seu corpo parecia perceber tudo isso, de certa forma, e não importava se vestisse a roupa mais simples que tinha, os olhares na rua sempre se voltavam para ela.
Há alguns dias ela vinha irradiando essa coisa, essa atratividade que só conseguia definir como "felicidade". Não existem palavras suficientes em nenhum idioma do mundo, afinal - não que conhecesse todos eles, mas algo lhe dava essa certeza.
Seus dias pareciam um filme premiado em Berlim; tinham um quê de musical (apesar de seu Ipod ter caído na piscina no mês passado). Andando na rua, tinha a sensação de que todo um corpo de baile a acompanhava, e que atrás de alguma moita havia uma banda de rock à sua disposição.
Às vezes parava e olhava para o próprio corpo, a fim de se certificar de que não estava dançando de fato. A vontade de cantar bem alto, no meio do vai e vem de carros e pessoas, no entanto, permanecia latente.
O que era tudo isso? Por quê, de repente, tudo isso? Não existem palavras suficientes em nenhum idioma.

Uma das minhas fotos preferidas
Dupla exposição com a Diana Mini e filme P&B

terça-feira, 15 de março de 2011

Sua obra não foi o conteúdo

Seus dedos estavam meio bêbados, meio trêbados, perambulando pelo teclado, caindo aqui e ali.
Caminhava em reticências, soluçava em exclamações e perguntava com interrogações o que ninguém lhe respondia.
Rrrrrrasgou o bolso na cerquilha e acabou perdendo alguns cifrões.
Ficou chateado, ficou puto, em Caps Lock, mas de nada adiantou quando pisou no asterisco e foi rolando escada abaixo, traço por traço, de espaço em espaço, até atingir o travessão.
Caiu com força, em ponto final mas com cara de vírgula. Alt + F4 na situação.
O que estava escrito no email não importa.


Trânsito na praia de Botafogo
Câmera: Diana Mini
Filme: Lomography ISO 100

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Clube de Espiões

     Três crianças como qualquer outra criança saudável: coradinhas, cheirosinhas e criativas. Brincando de pique-esconde, desvendaram todo o quintal. Conheciam cada espacinho e dificilmente errariam o palpite caso colocadas em algum lugar dali de olhos vendados. Só tropeçavam durante a cobra-cega (ou cabra-cega, sempre discutiam sobre isso) se algum adulto modificasse alguma coisa; uma caixa, uma vassoura fora do lugar, a mangueira desenrolada pelo chão.
     A mais velha, 9 anos e única menina, apresentou Chiquititas aos outros dois (8 e 7 anos cada um). Não demorou muito mais que dois meses, e os três já tinham tudo planejado na cabeça. Usando o verso de uma folha de tabuada, a mais velha desenhou o mapa do quintal e os outros dois copiaram usando um kit de desenho. Fugiriam de casa na noite seguinte, logo depois do jantar, quando seus pais levariam mais tempo para notar que, de repente, o ambiente tinha ficado quieto.
     Esvaziaram a mochila da escola e encheram-na de coisas realmente úteis para a jornada. Garrafinha de Yakult, Trakinas, Passatempo, um lápis e uma borracha ("sei lá, né!"), sabonete, toalha de mão, lanterna do carro do pai de alguém, uma almofada, uma tartaruga e um coelho de uma orelha em pé e outra caída.
     - Você não vai levar esse coelho.
     - Por quê não?
     - Porque ele tem uma orelha em pé e outra caída. Ele tem cara de suspeito.
     - Então você não leva essa sua tartaruga cascuda aí. Se ela roubar alguma coisa e levar pra dentro do casco dela, a gente nunca mais pega de volta.
     Tudo pronto. Jantaram frango com arroz, feijão e tomate. A mais velha lia o mapa, enquanto o gordinho apontava a lanterna pra onde ela indicava. Sobe aqui, desce ali, vira à esquerda mais à frente, acabaram no telhado de casa, e dali descobriram que podiam andar pelos telhados de quase toda a vizinhança.
     Se podiam, fariam. Resolveram ir pra casa da direita porque... "sei lá, né!", e descobriram uma telha solta.
     - É um alçapão!
     - Não é não, é um porão.
     - Ai, burro. É um sotão.
     - Acho que é porão.
     - A gente pode morar aí dentro.
     - Arranca a telha!
     - Aqui. Arranca essas também.
     - Pronto, eu passei! Sou mais gordo, então vocês também passam!
     - Legal. Esse pode ser o nosso clube.
     - Clube do Alçapão...
     - É sotão.
     - Porão!
     - Clube de Espiões. Bota isso no mapa.
     Duas horas depois, eles estavam de castigo no quarto. Enquanto ouviam o vizinho que gritava com os pais lá na sala, pensavam em quando fugiriam outra vez. O clube de espiões não poderia acabar...
     Mais de dez anos depois, cada um tendo tomado o próprio rumo há algum tempo, tendo cada um vivido coisas completamente diferentes, quase não se reconheceram durante a festa de 70 anos da avó. Um deles tinha até um sotaque meio diferente de... sei lá, né.

Crianças aleatórias em Ipanema
Câmera: LC-A+
Filme: Lomography ISO 100
O "Clube de Espiões" realmente existiu. Embora não tenha sido "fundado" como descrito no texto, terminou de forma bem semelhante.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quando não toca Radiohead

      O celular tocou, mas ela estava no banho. Com a espuma do shampoo descendo pelos olhos, era impossível enxergar o visor do celular, mas de uma coisa ela teve certeza: o número era desconhecido. Os registrados na agenda faziam tocar Radiohead.
      Mesmo excluindo as impossibilidades óbvias, qualquer pessoa do mundo poderia ter digitado o seu número, por engano ou não, e estar do outro lado da linha, nesse exato momento, ouvindo o tom de chamada. Mas ela não pensou nisso. Ela não pensou sequer em quanta gente não sabe bloquear o teclado de seus celulares sem flip.
      Dentre as milhares de possibilidades - ela tinha um histórico de popularidade que começava no pré-escolar - só uma pessoa lhe vinha à memória: o melhor beijo da sua vida. Ele poderia estar lá, calado, à espera somente do seu "alô". Ela atenderia, ele diria que seu celular havia descarregado e o carregador fora roubado na noite retrasada enquanto ele pedalava pra casa. Ela responderia que tudo bem, e o movimento dos seus lábios se abrindo num sorriso seria ouvido do outro lado da linha.
      Ou ela não atenderia e ele, insatisfeito, lhe mandaria flores com um cartão e seu poema preferido. Assim que ela terminasse de ler, jogada no sofá com um sorriso bobo no rosto, alguém mexeria as cortinas da sua janela, e o melhor beijo da sua vida lhe faria uma surpresa entre brisas e pedaços de seda.
      O toque parou, e ela se assustou. Passou a toalha como pode em volta dos cabelos e, enquanto se convencia de que a combinação de números que ela agora via na lista de ligações perdidas tinha tudo a ver com o melhor beijo da sua vida, o celular tocou outra vez. E não tocou Radiohead. Hesitou, depois esperou ansiosamente durante mais três toques e atendeu.
      Mas antes de borboletas invadirem seu banheiro e flores misteriosamente brotarem, antes da música romântica começar a tocar e dezenas de pessoas invadirem o quadro, todas dançando os mesmos passos num musical de tirar o fôlego...
      - Clarissa?
      - Sou eu...
      - Aqui é Renata, da Cavendish. Tô ligando pra avisar que chegou a nossa nova coleção, que está linda e passeando entre tons de branco e magenta, e que amanhã às quatro horas vai ser o lançamento oficial da coleção e você está convidada.
      - Ahn, tudo bem...


Dupla exposição em Ipanema
Câmera: LC-A+
Filme: Lomography ISO 100

A partir de agora, sempre que possível, todos os textos serão acompanhados por uma fotografia de minha autoria.

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