terça-feira, 13 de julho de 2010

Tem assassino na vizinhança

   Desde que fora mordido pelo cachorro do vizinho aos 5 anos de idade, tomou pavor por qualquer coisa peluda. Por isso só se cobria com edredom, seu animal de estimação era um peixe beta, e exigia que sua namorada estivesse sempre milimetricamente depilada.
   Agora, 20 anos depois, o cachorro do vizinho já não era mais o mesmo. Quase não tinha dentes, o focinho já não brilhava tanto, e sempre havia uma névoa branca em seus olhos. Não se importava mais com quem invadisse seu território, seja pra roubar mangas das mangueiras ou para buscar a namorada pra sair – porque coincidências acontecem por aí, e o rapaz que mordera há 20 anos agora invadia seu território com mais frequência.

   E, sabe, até que ele tinha ganhado certa simpatia pelo garoto que, curiosamente, sempre aparecia logo depois de um bife ser jogado pelo muro. Apesar de ter certeza de que atrás daquele ponto do muro morava algum santo provedor de bifes, sempre que saía para passear na rua, procurava e procurava, mas nunca encontrava o santo. Fosse por causa do seu faro, que já não era mais o mesmo, ou porque o santo tivesse algum pacto com o rapaz, resolveu ser amigo do garoto.

   Era apavorante. Ele fazia de tudo pra cativar o cachorro, mas o bicho não se importava. Cães são assim: Quando não estão chupando manga, estão latindo pra você, te fazendo lembrar do que acontece com quem invade o território deles. Aquele, então, era mais territorialista que o pai da namorada, Cruz Credo! Bicho ingrato, que nem se importa se acabou de ganhar um bife. Vem logo correndo pra cima, bufando, com aqueles olhos vidrados, aquele pelo... peludo.
  
   - Ele tá te agradecendo, que lindinho! Ele te adora - a namorada dizia, ingênua - Coitadinho do meu fofucho. Levei ao veterinário ontem, ele tá com um problema no coração...
   - Ah, não fica assim...
   - Quer beber alguma coisa? Meus pais não tão em casa, sabia?
   - Claro que quero.
   - Me espera no meu quarto, que eu vou preparar alguma coisa gostosa pra gente.

   Os dois entraram na casa, e ele foi atrás. Afinal, depois de um bom bife, nada melhor que umas lambidas na tigela de água. Mas a tigela estava vazia; teria que pedir a alguém para enchê-la. Como a dona estava ocupada, decidiu que essa seria uma boa chance pra estreitar relações com o rapaz pactuado com o santo...

   Ele foi pro quarto, claro. E ficou lá, esperando, até que o cachorro também entrou no quarto. Aqueles olhos, aquele cheiro, aquele pelo. Sentiu seu coração disparar, e quando o bicho subiu na cama, subiu nele e começou a atacar, sua única forma de defesa foi gritar com toda força.

   Ele estava lá, pedindo água, acariciando o peito do rapaz com a pata, lambendo-lhe a cara, e o cara gritando cada vez mais. Ai, seres humanos! Todo aquele descontrole confundiu seu coração, e ele sentiu uma dor enorme no peito, insuportável. Caiu de lado, a língua pra fora.

   - Matei seu cachorro.
   - O quê?
   - Matei seu cachorro, desculpa. Matei seu cachorro a grito.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Rojões são expressivos

De repente, muito barulho de explosões. Todos aqueles rojões estourando, contraditórios às vuvuzelas em silêncio.
Quando um time perde, é assim. Quem investiu nas comemorações sente a necessidade de reclamar, e não há nada melhor que um grito em conjunto.
O mesmo ato expressando emoções tão diferentes.
Choram, xingam, esmurram a mesa de bar, mas são as mãos que protestam à altura.
Para quem olha de cima - se é que alguém olha de cima - parece um povo em festa.
Não. É um povo acostumado a fazer festa, e que queria mais um motivo pra isso. Já era.

eXTReMe Tracker

  © Blogger template Shush by Ourblogtemplates.com 2009

Back to TOP