domingo, 6 de junho de 2010

Ela quer ser Sarah

     Quando ela chega da escola, depois de jogar a mochila ao pé da cama, trocar de roupa e se sentar na cadeira da mesa do quarto, ela liga o computador. Ela, que no auge da sua adolescência é tão contra a rotina, critica tanto seus pais por não saírem do comum. Logo ela, há muito tempo tinha entrado nessa rotina e não se dava conta.
     Enquanto a versão mais nova do Windows se inicia (é, ela tem que esperar, já que seus pais não lhe dão um Mac porque é "diferente demais"), enquanto isso, ela prende os cabelos num rabo de cavalo, e cruza as pernas - os pés ainda de meia - tal como imagina que os chineses fazem. Depois ela coloca sua playlist do media player pra tocar. É enorme e está em constante mudança, então ela nunca sabe o que pode tocar depois da primeira música - a única que ela se permite escolher.
     Depois do ritual - e é importante frisar que ela ainda não se deu conta de que aquilo já é quase um vício - depois do ritual ela abre o chat e entra em um mundo novo. Chat de RPG, Role Playing Game, onde cada um não é si próprio, é quem imagina ser. E ela é a mulher que deseja ser. Longe daquela garota de 14 anos, alta ou baixa demais, magra ou gorda demais, que fala demais ou que não fala quase nada, que não parece se encaixar em nenhum grupo social.
     Ela é Sarah, alta, esguia, poderosa, fatal. Uma mulher de vinte e alguns anos, segura de si, que se movimenta de forma precisa, sem hesitar. Ao contrário dela, Sarah sabe o que quer, como conseguir e tem até uma foto - na verdade, um desenho feito a lápis, mas muito bem feito, por sinal.
     Sarah fala de forma impecável, tem uma postura impecável, e tem superpoderes. Sim, porque ela é a princesa de um reino "longínquo e esquecido, atualmente em guerra, e foi obrigada a abandoná-lo por causa disso". Uma ação nada corajosa, ela admite, mas sabe que, estando longe das garras do invasor de seu reino, ela pode lutar melhor contra ele. Sim, porque ela é astuta.
     Sarah é tudo isso, e tudo isso faz parte da menina de 14 anos, mas a menina ainda não percebeu isso - e provavelmente nunca perceberá. Ela nunca vai saber que é linda para quem a interessa, que é inteligente e muito talentosa nos desenhos. Nunca vai saber que, já aos 14 anos, é poderosa e astuta para os padrões de sua idade.
      E tudo isso porque, ao contrário de Sarah, ela não é segura de si. Ainda.
     Um dia ela vai virar Sarah, com certeza. Enquanto isso, pede para os amigos do chat a esperarem, porque sua mãe a está chamando para o jantar.

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