quinta-feira, 10 de junho de 2010

Branca

   Sempre que ela terminava de comer e ia pagar a conta, os dois trocavam algumas palavras. Depois de dois anos de conversinhas minúsculas na hora do almoço, ficaram íntimos em seus pensamentos - e como pensavam um no outro! Branca, porque era gerente de uma multinacional, um cargo que não lhe permitia ter amigos. Caetano, bem, ele tinha lá suas razões.
   Ela, que aos 27 anos nunca tinha ido a um happy hour, night ou sido beijada. Branca era virgem. Já estava chegando aos 30, mas guardava dentro de si a doçura e ingenuidade de uma pré-adolescente.
   Caetano não era virgem, - claro que não, ele já tinha estado com prostitutas - mas sentia as mãos gelarem toda vez em que a via na fila do caixa. Era a primeira vez que queria estar com uma mulher que, aparentemente, também queria estar com ele.
   Depois de dois anos naquela relação de

   - Oi, deu vinte e setenta.
   - Oi, tudo bem? Aqui, é débito.
   - Eu sei que é. Tudo, e com você? O cachorrinho melhorou?
   - Ele tá bem, minha prima é veterinária.
  
   Depois de dois anos, os dois já sabiam o suficiente das vidas um do outro pra poderem se sentir íntimos. Mas o próximo passo para a intimidade só foi dado quando ele sonhou com ela pela primeira vez, e isso foi depois de dois anos e meio daquela relação de
  
   - Oi, deu doze e quarenta.
   - Oi, tudo bem? É déb...
   - Débito, eu sei.
   - É, sabe.
   - Você tá bem? Comeu menos que o de costume.
   - Tomei café tarde.
  
   Depois de dois anos e meio, Caetano finalmente a convidou.
  
   - Você vai do trabalho direto pra casa, né?
   - Vou.
   - Amanhã é sábado.
   - É. Tá prometendo chuva.
   - É. Quer sair comigo hoje? A gente pode ver aquele filme do mesmo cara daquele outro filme, Gladiador.
   - Pode ser...
   - Você sai às 17h30, né? Eu saio às 19h, mas posso pedir pra sair antes... Me encontra no shopping?
  
   Eram 14h30 quando ele disse isso. As três horas seguintes foram de completa ansiedade e dúvida para ambos.

Mas antes de continuar, preciso dizer que a cabine do caixa era de vidro, mas coberta por caixas de bala. Branca não conhecia muito mais que partes isoladas do rosto de Caetano (e vice-versa), e foi por isso que aconteceu o seguinte:
  
   Três horas depois, ela estava em pé, olhando a vitrine da livraria, quando alguém tampou seus olhos. Ele, com certeza. Ela reconheceu a voz do "Adivinha quem é?". Mas quando olhou pra trás, quem viu foi um rapazinho loiro, óculos escuros no colarinho, ajeitando a blusa pra dentro da calça. "Ai, não! Ele pintou o cabelo e usa blusa pra dentro da calça".
   - Você pintou o cabelo...
   - Não, ele é meu amigo.
   Era a voz dele, e não vinha da boca do loiro, vinha... de baixo. Uma boca que estava a mais de 50cm abaixo da boca dela.
   - Valeu pela ajudinha, Jhonny. A gente se vê amanhã.
   E Jhonny foi embora.
   - Sabe como é, precisei dele pra chegar até os seus olhos.
   Caetano ficou. Caetano, o anão do caixa.
   Depois da apresentação, eles foram para a praça de alimentação. E enquanto conversavam e comiam uma torta de maçã, ele crescia cada vez mais aos olhos dela.

6 comentários:

Loverocklive disse...

A beleza realmente está nos olhos de quem vê, parabéns pelo texto, gostei bastante.

http://adrianasoares15.blogspot.com/ disse...

Bem interessante, gostei!!!

Obrigada, pela visita quando der da uma passadinha lá..bjo

Estou te seguindo!

Orlando Camargo disse...

Mas o cara era anão mesmo ou só era baixinho?

Monalisa Marques disse...

Anão ou não, você pode decidir. :)

Luiz Brisa disse...

gostei xD
a beleza ta nos olhos d cada um

Antonoly disse...

Texto sensível e muito bem escrito, você tem o dom para a coisa, apreciei demais.
Beijos!

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