sexta-feira, 18 de junho de 2010

E os Magos?

Já era. Cada vez mais magos vão morrer.
Nossa sociedade está fadada a seguir com a própria sorte.
Nada mais de magias, de pequenas interferências no curso dos pensamentos.
O que nos resta é a contentação de usar doses repetidas de pessimismos construtivos.
Agora, sim, podemos delimitar o espaço destinado a elas nas nossas estantes:

Não serão mais fabricadas novas doses de sara-magos.


José Saramago morreu hoje, aos 87 anos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ele late

   Era uma criança tão reprimida e acima do peso, que se identificou com Pequena Miss Sunshine desde o trailler. Comia compulsivamente quando estava nervosa, engolindo tudo sem mastigar, sem sentir prazer. Quando estava relaxada, também comia compulsivamente, mastigando e salivando cada mordida do que quer que estivesse saboreando.
   Depois que assistiu o filme, passou uma semana assinando seus trabalhos da escola como Oliver, até levar uma advertência e ser levada ao psicólogo. Passou uma semana tomando sorvete de chocolate, e tinha certeza de que se existisse toda a moda dos waffles no Brasil, seria capaz de passar uma semana comendo waffles à la mode.
   Como encontrava conforto na comida, comparava tudo o que gostava às suas comidas preferidas. Hanna Montana tinha cabelo de espaguete, seu travesseiro era macio como um marshmalow, e o Wii era branco como a cocada branca da avó.
   A mãe, preocupada com a menina, mas sem tempo bastante para lhe dar atenção, resolveu seguir os conselhos da vizinha: Comprou um bicho de estimação. Quando chegou com o cachorro em casa, sabendo da fixação da filha, propôs:

   - Ele é seu com uma condição. Você tem que parar de falar de comida o tempo todo, e só vai comer o que eu deixar. Ah! E quem dá comida pra ele sou eu - ela acrescentou, temendo que a filha criasse uma paixão especial pela ração do cachorro.

   A menina pensou e pensou, e ainda pensou mais um pouco, até que decidiu aceitar. O esforço era muito, mas filhotinhos sempre tocam o coração da gente, principalmente se a gente for uma criança com alguns problemas.
   Mas ela não era boba. Se fosse boba, ora bolas, não teria tirado 10 em matemática. Prometeu à mãe que pararia de falar em comida, mas ninguém poderia impedi-la de pensar.

   - O nome dele é Xôco.
   - O quê?
   - Xôco, igual aquele desenho japonês, lembra?
   - Lembro, claro - é claro que a mãe não lembrava, mas não poderia deixar a filha perceber que ela dormia sempre que as duas viam televisão juntas. A filha não entenderia seu cansaço e poderia se ofender.
  
   Pronto, estava escolhido o nome do bassê. Foi correndo pro quarto, escrever no diário.
  
Querido diário,
     Minha mãe me deu um cachorrinho hoje, e eu fiz esse poema pra ele.

Ganhei um cachorro
Ele é lindo, ele late
Ele se chama Xôco
Xôco é lindo, Xôco late

domingo, 13 de junho de 2010

"O menino do pijama listrado"

   O livro (The boy in the striped pyjamas) de John Boyne agrada pela sensibilidade e simplicidade na escrita. Durante a II Guerra Mundial, Bruno vê sua rotina mudar completamente por causa do trabalho do pai (um comandante nazista).
   Como diz a publicação em inglês, o livro é "uma história de inocência em um mundo de ignorância". Ter acesso a informações da época sob o ponto de vista de um menino de nove anos é uma experiência muito forte. A história é contada em terceira pessoa, mas o narrador é impregnado pelos pensamentos do personagem principal, o menino Bruno - ou o "jovem rapaz Bruno", como ele mesmo prefere - de forma que entramos em seu mundo, com direito aos seus vícios de linguagem e reflexões.
   A irmã adolescente Gretel, o "Caso Perdido", que ri demais de tudo o que o tenente Kotler fala - por mais sem graça que ele seja; a casa nova em "Haja-Vista", para qual é obrigado a se mudar com a família quando o pai é promovido pelo "Fúria"; as pessoas que andam de um lado para outro, "confortáveis em seus pijamas listrados", e que moram em casinhas de onde saem nuvens de fumaça... e dentre essas pessoas está Shmuel, um menino judeu.

  

















   O livro deu origem ao filme de Mark Herman, lançado em 2008. E, ao contrário do que acontece em outras adaptações, é muito bom ver os rostos de Bruno (Asa Butterfield) e Shmuel (Zac Mattoon O'Brien). Recomendo ambos (livro e filme).

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Branca

   Sempre que ela terminava de comer e ia pagar a conta, os dois trocavam algumas palavras. Depois de dois anos de conversinhas minúsculas na hora do almoço, ficaram íntimos em seus pensamentos - e como pensavam um no outro! Branca, porque era gerente de uma multinacional, um cargo que não lhe permitia ter amigos. Caetano, bem, ele tinha lá suas razões.
   Ela, que aos 27 anos nunca tinha ido a um happy hour, night ou sido beijada. Branca era virgem. Já estava chegando aos 30, mas guardava dentro de si a doçura e ingenuidade de uma pré-adolescente.
   Caetano não era virgem, - claro que não, ele já tinha estado com prostitutas - mas sentia as mãos gelarem toda vez em que a via na fila do caixa. Era a primeira vez que queria estar com uma mulher que, aparentemente, também queria estar com ele.
   Depois de dois anos naquela relação de

   - Oi, deu vinte e setenta.
   - Oi, tudo bem? Aqui, é débito.
   - Eu sei que é. Tudo, e com você? O cachorrinho melhorou?
   - Ele tá bem, minha prima é veterinária.
  
   Depois de dois anos, os dois já sabiam o suficiente das vidas um do outro pra poderem se sentir íntimos. Mas o próximo passo para a intimidade só foi dado quando ele sonhou com ela pela primeira vez, e isso foi depois de dois anos e meio daquela relação de
  
   - Oi, deu doze e quarenta.
   - Oi, tudo bem? É déb...
   - Débito, eu sei.
   - É, sabe.
   - Você tá bem? Comeu menos que o de costume.
   - Tomei café tarde.
  
   Depois de dois anos e meio, Caetano finalmente a convidou.
  
   - Você vai do trabalho direto pra casa, né?
   - Vou.
   - Amanhã é sábado.
   - É. Tá prometendo chuva.
   - É. Quer sair comigo hoje? A gente pode ver aquele filme do mesmo cara daquele outro filme, Gladiador.
   - Pode ser...
   - Você sai às 17h30, né? Eu saio às 19h, mas posso pedir pra sair antes... Me encontra no shopping?
  
   Eram 14h30 quando ele disse isso. As três horas seguintes foram de completa ansiedade e dúvida para ambos.

Mas antes de continuar, preciso dizer que a cabine do caixa era de vidro, mas coberta por caixas de bala. Branca não conhecia muito mais que partes isoladas do rosto de Caetano (e vice-versa), e foi por isso que aconteceu o seguinte:
  
   Três horas depois, ela estava em pé, olhando a vitrine da livraria, quando alguém tampou seus olhos. Ele, com certeza. Ela reconheceu a voz do "Adivinha quem é?". Mas quando olhou pra trás, quem viu foi um rapazinho loiro, óculos escuros no colarinho, ajeitando a blusa pra dentro da calça. "Ai, não! Ele pintou o cabelo e usa blusa pra dentro da calça".
   - Você pintou o cabelo...
   - Não, ele é meu amigo.
   Era a voz dele, e não vinha da boca do loiro, vinha... de baixo. Uma boca que estava a mais de 50cm abaixo da boca dela.
   - Valeu pela ajudinha, Jhonny. A gente se vê amanhã.
   E Jhonny foi embora.
   - Sabe como é, precisei dele pra chegar até os seus olhos.
   Caetano ficou. Caetano, o anão do caixa.
   Depois da apresentação, eles foram para a praça de alimentação. E enquanto conversavam e comiam uma torta de maçã, ele crescia cada vez mais aos olhos dela.

domingo, 6 de junho de 2010

Ela quer ser Sarah

     Quando ela chega da escola, depois de jogar a mochila ao pé da cama, trocar de roupa e se sentar na cadeira da mesa do quarto, ela liga o computador. Ela, que no auge da sua adolescência é tão contra a rotina, critica tanto seus pais por não saírem do comum. Logo ela, há muito tempo tinha entrado nessa rotina e não se dava conta.
     Enquanto a versão mais nova do Windows se inicia (é, ela tem que esperar, já que seus pais não lhe dão um Mac porque é "diferente demais"), enquanto isso, ela prende os cabelos num rabo de cavalo, e cruza as pernas - os pés ainda de meia - tal como imagina que os chineses fazem. Depois ela coloca sua playlist do media player pra tocar. É enorme e está em constante mudança, então ela nunca sabe o que pode tocar depois da primeira música - a única que ela se permite escolher.
     Depois do ritual - e é importante frisar que ela ainda não se deu conta de que aquilo já é quase um vício - depois do ritual ela abre o chat e entra em um mundo novo. Chat de RPG, Role Playing Game, onde cada um não é si próprio, é quem imagina ser. E ela é a mulher que deseja ser. Longe daquela garota de 14 anos, alta ou baixa demais, magra ou gorda demais, que fala demais ou que não fala quase nada, que não parece se encaixar em nenhum grupo social.
     Ela é Sarah, alta, esguia, poderosa, fatal. Uma mulher de vinte e alguns anos, segura de si, que se movimenta de forma precisa, sem hesitar. Ao contrário dela, Sarah sabe o que quer, como conseguir e tem até uma foto - na verdade, um desenho feito a lápis, mas muito bem feito, por sinal.
     Sarah fala de forma impecável, tem uma postura impecável, e tem superpoderes. Sim, porque ela é a princesa de um reino "longínquo e esquecido, atualmente em guerra, e foi obrigada a abandoná-lo por causa disso". Uma ação nada corajosa, ela admite, mas sabe que, estando longe das garras do invasor de seu reino, ela pode lutar melhor contra ele. Sim, porque ela é astuta.
     Sarah é tudo isso, e tudo isso faz parte da menina de 14 anos, mas a menina ainda não percebeu isso - e provavelmente nunca perceberá. Ela nunca vai saber que é linda para quem a interessa, que é inteligente e muito talentosa nos desenhos. Nunca vai saber que, já aos 14 anos, é poderosa e astuta para os padrões de sua idade.
      E tudo isso porque, ao contrário de Sarah, ela não é segura de si. Ainda.
     Um dia ela vai virar Sarah, com certeza. Enquanto isso, pede para os amigos do chat a esperarem, porque sua mãe a está chamando para o jantar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Carta de despedida

Essa é a última noite que durmo nesse quarto, se é que vou dormir aqui.
Em quatro horas, vou tomar meu último banho quente de banheira, colocar meu pijama de frio e me enfiar embaixo do cobertor peludo.
Pela última vez.
Essa noite vou ler as últimas páginas do meu último livro, e provavelmente vou dormir deitada nele.
Pela última vez.
Meu cachorro vai me dar a última lambida de boa noite, também.
Adeus ao cheiro de grama molhada do Jardim Botânico, ao vento frio no rosto da janela aberta, ao gosto de café com leite e baunilha.
Hoje foi meu último dia.
Acordei tarde pela última vez (se tivesse acordado cedo, não seria diferente).
Fui pra faculdade pela última vez. E pro estágio, pro elevador, pro curso de francês.
Meu cachorro me deu a última lambida de boas vindas, também.
Vai ser minha última janta, meu último sonho, pesadelo ou o que quer que seja.
Aos 20 anos de idade.
Porque amanhã, bem, amanhã eu já vou ter 21.

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