domingo, 29 de novembro de 2009

O dom

Enquanto arrumava a prateleira dos importados, "Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela..." com afinação perfeita. Até que:

- Karina, você tem o dom?

O coração disparou. Saiu da boca e ficou pulsando sobre o "New Moon - Especial Edition".
O senhor, ar de professor, tinha lido seu nome no crachá, mas mesmo assim... Bem, produtores têm ar de professor, não têm? Ela tinha certeza que sim. Professores descolados, de colete e meio calvos, barbicha, descolados das regras de conduta necessárias para respeitar o ego dos outros.
E aquela pergunta, ai santinha, aquela pergunta!
"O dom".
Direta, sem gaguejar, palavra por palavra em segurança. Nossa!
Imagina só, largar os esporros do Seu Carlos por bater o ponto dez minutos atrasada em dia de prova da faculdade.
Imagina só, esfregar na cara do ex o seu talento bem lapidado, e que cantora de banheiro que nada!
Imagina só! Autógrafos, seu nome e sobrenome no mural do Canecão... E o Felipe Dylon. Cadê ele, hein?
Ídolos, Fama, pra que? Esfregaria o mp3 da irmã com músicas da Amy Winehouse e dela na cara de todos eles... Ai, "o dom".

- Ahn, se o senhor acha...

Isso, aparentar humildade era o lance.

- Mocinha, se eu tivesse encontrado, não pediria sua ajuda.
- Como?
- Dom Casmurro. Onde tem Dom Casmurro?
- Ah. Na seção de nacionais, senhor. Desculpa. Bem ali.
- Obrigado.

Aí a música acabou,

e ela não encontrou os olhinhos que esperava. Sabia que não os encontraria mesmo, mas seu otimismo não a deixava acreditar. Nunca.
Aquele mesmo otimismo que a fazia entristecer 50% das vezes...
E parecia que todo mundo sabia de toda a decepção em seus pensamentos, querendo animá-la com todos aqueles aplausos, abraços e "parabéns, você foi muito bem".


Ai, o cheirinho de alfazema...

No seu banheiro, cantinho cativo de todos os seus pós-eventos culturais há uns três anos, chorou o que queria chorar desde a coxia. Cotia, coxinha... Haha.
Seria uma noite bipolar:
Ela não foi
Mas ele foi
Ela não foi mesmo
Ele me abraçou
Sabia que ela não iria...
Nossa, ele me abraçou!
...

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