segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Pedro Pedreiro

Pedro Pedreiro preferia um péssimo jornal a um bom livro. "Livros contam mentiras", ele explicava. "As histórias do jornal são de verdade", e isso lhe dava a esperança de mudar de vida. Gente pobre que enriquece, gente rica que empobrece. Políticos espertos. A pizzaria do seu Manolo. O jornal também pautava os assuntos de suas conversas - por mais que, para ele, só "desse o que conversar".

Tijolo
- Ih, se separaram de novo.
Cimento
- Também, ela posou na Playboy!
Massa
- Gostosa...
Lixa
- Mó galinha, meu. Ciúme da porra.
Tinta
-Eu pegava.
Café
- Galinha não vôa, então não pousa.

Mas só lia as manchetes. Elas, sim, é que eram legais. O resto tirava a fantasia, contradizia a manchete e aproximava a história do seu cheiro de suor seco acimentado. Só lia as letras grandes porque queria esquecer. E o sonho do jornalista, coitado, de mudar o mundo, virava programa de auditório ou Discovery Channel, quando algum panda nascia.

Tijolo
- Esse troço de panda nasce que é uma beleza!
Cimento
- Tão em extinção, seu animal.
Massa
- Vai nessa. Só tem notícia de panda nascendo.
Lixa
- É. Vê se nasce algum cavalo. Algum leão.
Tinta
- O pinto dele é pequeno, sabia?
Café
- Deve ser maior que o teu.

Foi justamente numa dessas que ele virou foto de manchete. Não, não morreu. Pelo contrário. Como não tinha tempo nem cabeça pra fundar uma Igreja, se limitou a construir uma. Levava a "luz de Deus" aos outros pedreiros e, assim, Deus o recompensava fazendo com que subisse na vida. Desceu do morro, comprou casa pras férias, pro cachorro, e até um pedacinho de praia pro iate.

Um real
- Só isso, irmão?
Cinco
- Generosidade é uma virtude de Deus!
Dez
- A avareza é pecado, irmão!
Cinqüenta
- O demônio cuida dos pecadores!
Duas de cinqüenta
- O que vocês derem aqui hoje, vão receber em dobro amanhã!
Cheque
- Aleluia!

Um dia, foi jogar na Bolsa. Tolinho. Não sabia que é pecado misturar fé e jogo. Perdeu tudo.
Foi foto de manchete outra vez.

domingo, 14 de setembro de 2008

Você diz?

Falar sem dizer nada é doença. Quem sabe, mais uma para a lista de sintomas do fim do mundo - vem logo depois da experiência com o colisor de hádrons, na opinião de muitos. Eu, particularmente, até acho graça nele. Simpático.
Tem gente que fala, fala, fala e não diz. É uma doença com dois graus possíveis de gravidade:

1. Quando falam e não dizem porque a palavra que falam não é compatível com o que se quer dizer. Acontece muito com "literalmente". Acham bonito falar "literalmente". Como se bastasse falar "literalmente" para se dizer letrado.
Numa enquete da comunidade do filme Bicho de Sete Cabeças, o cara diz:

"acredito que uma questão importante, é que um cidadão do bem que apenas fumava maconha, foi colocado no meu de pessoas que realemnet tinham problemas, e fizeram um bicxho de sete cabeça LITERALMENTE"

Tirando os erros ortográficos e cia, "literalmente" quer dizer "ao pé da letra". Ninguém construiu um bicho de sete cabeças no filme.
Não esculpiram em madeira, em papel machê nem em nada. Por quê, então, esse "literalmente" (todo em letra maiúscula)?

2. Quando a professora fala e não diz, porque ela não entende que o coitado do aluno não teve tanto tempo quanto ela pra digerir o que ela ensina. Acontece, por exemplo, quando se ensina o que é um emigrante e um imigrante. Geralmente fala-se em externo, interno, expirar, inspirar, blá blá blá. Bobeira.
Por quê ninguém me ouve?
Basta fazer assim:
Pensa numa pessoa muito chata. Muito mesmo.
Essa pessoa entrou no seu país? Iiiiih, migrante!
Essa pessoa saiu do seu país? Êêêê, migrante!

Pronto.
Tirei dez em Geografia na quinta série, e todo mundo achou que eu prestava atenção às aulas. Tsc tsc tsc.

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