domingo, 1 de junho de 2008

Mãe Valéria

Valéria era mãe duas vezes, embora só tivesse uma filha e ainda não fosse avó. De manhã, antes da filha ir pra escola, era mãe de Suzana. Fazia o café, passava manteiga no pão, dava alpiste ao periquito. À tarde, pra comprar café, manteiga, pão e alpiste pro dia seguinte, era Mãe Valéria de Ogum. Virava cartas, lia mãos, jogava búzios, assistia à bola de cristal.
Valéria gostava de ser mãe. De Suzana e de Ogum. Realizava os dois ofícios com orgulho e precisão. Era famosa na cidade por nunca ter falhado no destino de nenhum de seus clientes. Mas no de sua filha...

- Suzana. Esse troço de faculdade é pra rico. Esquece isso, que eu te ensino o meu caminho.

Mas não adiantou. A filha acabou passando no vestibular.

- Mãe, passei!
- Parabéns. Pra quê?
- Odontologia!

Valéria sorriu, mas não tinha gostado. Deixaria a filha estudar, mas com uma condição:

- Você vai trabalhar no meu lugar todas as manhãs. Das sete às onze, que é pra dar tempo de você almoçar. Não precisa esperar eu chegar pra sair.

Boa filha que era, Suzana aceitou tudo numa boa. E todas as noites, quando as duas se encontravam em casa...

- Querida, o que você fez hoje?
- Vi dente.
- Ah, menina. Você tem futuro!

Texto em homenagem à Suellen Gloria.
Ou Su, Susu, Susuca, Suzana...

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