quarta-feira, 14 de maio de 2008

Socorro

- Mãe, vou pra chopada.

Recém-adulta, Socorro era superprotegida desde que nascera.
E como para Lurdinha, a superprotetora, sua filhinha estava sempre na iminência de ser seqüestrada, uma reunião de jovens bêbados lhe parecia ser uma oportunidade para a consumação da tragédia. Para evitar sobressaltos, a mãe resolveu ir à vigília do bairro.
Rezou, rezou, pediu proteção à sua cria, e depois voltou pra casa.
Às três da madrugada, na rua silenciosa, descobriu que havia esquecido de levar as chaves.
Bateu à porta.
Nada.
Socorro tinha um sono de pedra.
Resolveu chamar.

- Filha, abre a porta. - Sussurou pela fechadura.
Nada.
- Socorro, abre a porta. - Disse baixinho pela frestinha da porta.
Nada.
- Ô Socorro! - Falou, forçando a maçaneta.
Nada.
- Socorro! - Gritou, dando socos na porta.
Nada.
- Socorro! SOCORRO! - Berrou.
Nada.

Na casa ao lado, a vizinha:
- Amor, você ouviu? Quem será que o maníaco está atacando dessa vez?
- Esquece, Rita. Finge que não ouviu, que senão sobra pra gente.

domingo, 11 de maio de 2008

Em breve

Em breve eu coloco mais textos aqui.
É que resolvi curtir outras coisas, e as outras coisas acabaram tomando o tempo do blog.
Mas eu reconcilio, pode deixar.

Minha mãe e o Jack. Jack é o cabideiro customizado; minha mãe dispensa descrições.
Ô manhê!
Feliz dia das mães!

sábado, 3 de maio de 2008

Vovó Adélia


Abaixou o fogo e foi para o sofá; essa costumava a ser a sua segunda hora preferida do dia, perdendo apenas para o beijinho matinal de seu netinho. Mas desde que flagrara a nora obrigando o garoto a cumprimentá-la na volta da escola, se desencantara: “Ah, essas noras!”, pensava. E foi assim que a lista de melhores momentos do dia se modificou (sim, ela sofria de uma compulsão por listas e listras).

Adélia agora aproveitava, ao máximo, aqueles trinta segundos - os quais ela preferia chamar de “meia hora”, já que assim os fazia durar mais. Às dez e quinze abaixava o fogo do arroz, colocava dois dedinhos de Vodca na caneca de chá e se sentava no sofá, de frente para a televisão. Assistia ao GNT. Gostava de falar assim, “ao GNT”, porque lhe dava a fantasia de ser culta. E só então bebericava a Vodca.

Molhou os lábios. “Ultra Corega Creme fixa sua prótese dentária...”. Ah, como ela odiava esses comerciais; serviam apenas para lembrá-la de que tinha idade suficiente para não pagar a passagem de ônibus. Suspirou de alívio quando começou o programa de moda; Adélia se inspirava naquelas mulheres, mesmo sendo (no mínimo) quarenta anos mais velha que elas. “... A nova moda acaba de chegar ao Brasil, e é para ficar!”, dizia a apresentadora, e Adélia ficou fascinada. As super modelos não desfilavam seus quase dois metros em saltos altíssimos, mas em botinas. Botinas de plástico pretas, verdes, coloridas, com bolinhas, e (oh!) com listras!

Adélia compraria uns cinco pares de botinas listradas com as mais diferentes cores, mas vovós de dentadura não se vestem de acordo com a “última moda” – pelo menos não em público – e ela queria ter uma pitadinha de reconhecimento por parte de seu neto. Mudou para o programa da Ana Maria Braga e escondeu a Vodca: Paulinho chegaria a qualquer momento da escola.

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