segunda-feira, 28 de abril de 2008

Nossa amiga Paradoxa

Conheço uma pessoa capaz de causar muita confusão interna. Não é vilã nem tem super poderes, é de carne e osso mesmo, mas confunde profundamente. Para não revelar sua identidade, daremos-lhe o codinome "Paradoxa".

Paradoxa é mulher, por volta de seus trinta e poucos. A cor de seus olhos e cabelo é duvidosa graças aos atributos tecnológicos de sua era, mas isso não vem ao caso; o que vem, é que Paradoxa é uma criança grande. Note a falta de aspas. Meu pai, sim, é uma "criança grande", com toda a sua alegria de viver, mas Paradoxa é uma criança grande (sem aspas), uma pessoa que cresce fisicamente e só.
Seu corte de cabelo é infantil, seu (des)penteado é infantil, seu sorriso é infantil, bem como também o são seu jeito de falar, implicar, perguntar e andar. Quanto a se vestir, não confeccionam roupas de criança para o seu tamanho - o que, convenhamos, não faz muita diferença, já que as crianças cada vez mais se vestem como adultos.
Por causa disso, Paradoxa causa, de impacto, o nosso estranhamento, mas também desperta interesse. E então nós deixamos que ela fique, e ela vai ficando e ficando, grudando como chiclete de criança, virando aquela coisa que incomoda e que se torna indesejável. Dá alergia, provoca dor de cabeça, febre, vira Aedes aegypti e a gente a repele.
Mas uma vez que estamos descontaminados, longe do perigo, Paradoxa se transforma aos nossos olhos: Sua distância faz aflorar em nós um sentimento de ternura. "Poxa, ela é só uma criança grande!", nós pensamos, e deixamos que ela volte. E tudo isso se torna um ciclo vicioso, fazendo de nós outros paradoxos - em outras proporções e condições, mas igualmente contraditórios.

E isso me faz concluir que existe muito desse tipo por aí. Se é que não se inclui nessa categoria toda a humanidade.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Nome de gringo

A costureira corria pela sala, atrás da criança que fazia sonoplastia com a boca:

- Neo, pára com essa idéia e vai pro banho!
- Por quê? – Disse a criança, pulando do chão para a mesa.
- Porque sim. A “ASA” fica longe daqui.
- É NASA, mãe. – Do chão pro sofá.

Alguém entrou na casa.

- Pelo amor de Deus, me ajuda com esse menino, Iracema! Não quer devolver o capacete do teu filho porque inventou de ser astronauta.
- Deixa ele, minha irmã, que isso é coisa passageira.
- Não é não! Eu vou até a Lua! – Do sofá pro vaso de planta.
- Ele acha que a Lua é de queijo! – Gritou a costureira, pisando firme até a cozinha e desistindo do garoto.
- Não acho não! Não sou burro. – Do vaso de planta pra mesinha de centro.
- Escuta, Neo. Esquece isso, que a sua mãe já está nervosa.
- E daí?! – Do sofá, de volta pra mesinha.
- Está vendo? É nisso que dá ficar dando nome de gringo pra criança! – Falou Iracema, indo encontrar a irmã na cozinha.

- E qual é o problema? Tu nunca viu “Matrix”? – A costureira se ofendeu.
- Acontece que “Neo” rima com “Neil”, de Neil Armstrong. E seu filho até que tem o braço forte.
- É, Iracema. Teu nome não é de gringo, mas tu é nerd demais pro meu gosto.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Minha Quista


Desempregado como estava, ocupava-se em pensar, e pensando ele inventava. Ficou tanto tempo sem emprego, que a prática acabou virando vício, e continuou a praticar mesmo depois de arranjar uma nova assinatura na carteira de trabalho.
Certo dia se meteu a pensar sobre origens de palavras; passou-lhe pela cabeça que "querido" derivava do verbo "querer", e sendo assim, que era uma palavra errada:

- Se vem do verbo "querer", o certo seria "quisto", e não "querido". - Constatou ele, e quis colocar a descoberta logo em prática. Quando a esposa chegou em casa, cansada, descabelada e de baixa auto-estima, recebeu-a com um abraço e disse:

- Minha quista!
- O quê?
- Meu amor, minha quista!
- Que está aonde?
- Eu disse "quista".
- Eu ouvi. Mas onde está esse seu amor?
- Você não entendeu...
- Entendi muito bem! Eu estou aqui. Se esse seu amor não está aqui, então está tudo acabado.

E ele ficou sem esposa. Perdeu por um lado, mas talvez ainda lucrasse por outro: Agora estava livre para encontrar alguém que compreendesse o seu vício.

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