segunda-feira, 24 de março de 2008

Insights, só em coletivos

Andar de ônibus lhe avivava as idéias. Aquele apinhado de pessoas desconhecidas evitando se entreolhar a fazia pensar; não, mais que pensar: voar. Sempre que árvores, postes e casinhas corriam em sua direção, ela voava para dentro de si mesma e, a partir daí, tinha idéias magníficas. Mentira, esse “sempre” não era tão constante assim; para que todo esse ato - diga-se de passagem - sonolento acontecesse, antes alguma coisa interessante deveria calhar a acontecer. Parece complicado, mas a ela tudo interessava.

Só que ela estava numa sala de aula, e árvores, postes e casinhas não costumam correr em direção a salas de aula. E esse não era o único obstáculo: ela ainda não tinha uma idéia pré-formulada sobre o assunto, já que nada a tinha feito pensar sobre aquilo antes. Ela já pensara sobre a vida, sobre emprego, sobre polêmicas de noticiários, sobre sexo – mas quase não se falava sobre sexo no vestibular.

Pois é. Estava fazendo a prova do ENEM, e nem sabia o que escrever na redação. Não que desse muita importância àquela prova, mas havia toda uma expectativa quanto à sua nota, e ela estava farta de ouvir críticas de uns metidos a profeta que diziam que ela não passaria no vestibular se continuasse daquele jeito. “Daquele jeito”. Aliás, ela odiava essa mania de profetizar por meio de palavras que não dizem nada, com a pretensão de dizer tudo. Aquele era o jeito dela, oras. Dedicava-se ao seu blog – ela gostava de escrever - e não a estudar matemática. E isso não significava que seria reprovada.

Exatamente por isso, deveria trabalhar para escrever aquela redação da melhor forma possível, para depois esfregar, metaforicamente, sua boa nota na cara de todos os profetas. Metaforicamente, porque se o fizesse literalmente diminuiria a vida útil do papel com sua nota.

Mas ela não tinha uma opinião formada sobre o aborto, e aí? Para ela esse era um daqueles assuntos dependentes do caso. Além de envolver diversas outras questões, como o começo e o direito à vida. E ela estava parcialmente paralisada, igual a certa pintura renascentista, mas o seu relógio digital continuava a piscar um número diferente a cada minuto. Alguém ao lado mastigava um Passatempo, e ela sequer podia pedir um sem que sua prova fosse tomada e a ela fosse atribuída um zero vermelho. Não. A caneta do vigia era preta. A dela era azul. Não, não. Foco! Não é caneta, é aborto. Aborto. Hm... Já “sei”.

Você acabou de ler um texto que reflete, ou pelo menos deveria refletir a "angústia do processo criativo". Esse era o tema da aula da última terça-feira de Técnicas, e resolvi publicá-lo aqui. (Gostari
a de ouvir a sua crítica construtiva).





Angústia (a mãe do artista), de David Alfaro Siqueiros. Ainda que jornalistas e publicitários não sejam artistas, vivem a mesma etapa do processo de criação.

6 comentários:

Mariana disse...

Adorei o "não, perai"

O processo criativo acontece com maior sucesso com menos pressão, entendo eu, já que quando você é pressionado seu corpo gasta mais energias focando no nervosismo e na atençao que você obrigatóriamente precisa dispensar para a atividade do que nas sinapses necessárias para evocar da memória o que ela ja sabia sobre o aborto e assim construir uma idéia.

No caso a prova do vestibular. Tenho certeza que se fosse para escrever em seu blog sobre o aborto, ela escreveria. Não tem niguém que avalie formalmente, ela nao depende disso para entrar na faculdade.

Mas, uma coisa importante: Sem conhecimento o processo criativo fica um pouco desfalcado.

Ai você pode me dizer: "não, peraí.." e quem faz aquelas artes e nunca estudou arte?

Eu respondo, ela coloca muito do que ela já viu no mundo naquilo, ou seja, há conhecimento!

Beijocas querida, adorei seu blog, vou linkar!

Cabraforte disse...

diria eu que pressão faz mal alta ou baixa, mas aqui isso não se encaixa.

Processo criativo e tão hetero que ao meu ver a cada um ele se apresenta de um jeito, o meu funciona comigo, madrugadas a fora eu fico a pensar e reflitir sobre atos e palavras.Mas isso sou eu, ach0 que isso quer dizer , não existe pra mim um tecnica pra criar açgo, vc tem qeu quere e saber o que quer com o que vc escolhe fazer!

bj

Juliana.Campos disse...

Turbilhão de idéias que acabam confundindo tudo e não saindo nada no papel!
Aí a gente diz: 'falta de inspiração!'
Minha professora de potuguês diz que isso é desculpa, que na verdade é falta de informação.
Mas penso que nem é, é o execesso de informação, a pressão causada pelo momento (como numa prova de vestibular) ou com você está pisicologicamente naquele momento!
Tudo isso afeta o processo criativo e o seu andamento ;)

P.s: não sei se foi uma crítica construtiva ou um tubilhão de idéias a mil jogadas a esmo na tela. Estou em fase de um processo criativo indefinido x)

beiijo*

Bruxx disse...

Oi lindinha, td bem?
Na minha modesta opinião, as melhores idéias, surgem do nada.
Acredite... já ví muita gente que cria textos divinos, na beira de uma pia, lavando louças, com uma perna dobrada.
Creio que, o descomprometimento, é que faz com que as idéias fluam.

É como em situações que, a gente se esforça pra lembra um nome, uma música... pra comentar com alguém... e não adianta... dá um branco... aí a gente deixa pra lá.
Não dá outra... logo depois, a gente lembra.
O segredo é esse... deixou de ser um compromisso.
Nem sei se me fiz entender.

De qualquer forma, adorei o post.
Beijokinhas carinhosas!
Vassourando

Gi KrDoSo disse...

É bem sugestivo sim...todos temos nossas crises de criação.

Éverton Vidal disse...

Acho as Redaçoes de vestibulares brochantes...

As redaçoes normalmente sao ensinadas de forma estúpida e por isso só saem normalmente textos estúpidos rs...

Bons textos sao frutos de um desejo. Um desejo de mudar, de desabrochar (como diria Clarice Lispector), de infernizar ou coisas assim... Nao é fruto de inspiraçao ou técnina (apesar delas estarem presentes). É fruto da vontade rsrs...

Gostei do texto!

Bj.
Inté!

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