sábado, 29 de março de 2008

Mortadelas, e toda a saudade que as acompanha

Descobri o blog de um amigo. Aliás, esse foi um caso raro em que conheci o blog através da pessoa, e não ao contrário. Engraçado como esse povo carioca simplesmente não tem blog - ou incrível como eu não acho blog carioca por aí. Mas o assunto de hoje não é blog, é mortadela. Um dos posts do "blog de um futuro comunicólogo desempregado" me inspirou a escrever sobre mortadelas.

Lembro que, quando criança, adorava mortadelas e tudo o que as acompanhava. Domingo, pão francês, o barulho do jornal do meu pai, o cheirinho do café da minha mãe, minha avó tomando banho de mangueira no quintal... Tudo isso sempre foi muito marcante na minha infância perfeita, até que as "coisas" começaram a morrer.

Primeiro foi o Ayrton Senna, e depois disso ninguém mais se reuniu pra gritar de alegria. Depois foi o grilo verde que eu roubei numa viagem e, daí em diante, foi como se a natureza me castigasse pelo pedacinho dela que eu havia tirado daquela fazenda. O cachorro cor-de-fogo que sujava o meu uniforme da escola todos os dias morreu, sem falar nos outros três.

Mas o pior de tudo foi o que aconteceu com alguém que não era grilo nem cachorro, que não era bicho - e eu não estou falando do Senna. Quando isso aconteceu, eu virei adulta e deixei de comer mortadela.
Mortadela. O nome é meio estranho, mas não é por isso que eu parei de comer. É que eu prefiro guardar como lembrança o gostinho da mortadela da minha infância, aquele gostinho que era imaculado e inocente, pela falta de uma grande saudade no peito.

Meu pai, minha mãe, e a Monalisa da época das mortadelas

segunda-feira, 24 de março de 2008

Insights, só em coletivos

Andar de ônibus lhe avivava as idéias. Aquele apinhado de pessoas desconhecidas evitando se entreolhar a fazia pensar; não, mais que pensar: voar. Sempre que árvores, postes e casinhas corriam em sua direção, ela voava para dentro de si mesma e, a partir daí, tinha idéias magníficas. Mentira, esse “sempre” não era tão constante assim; para que todo esse ato - diga-se de passagem - sonolento acontecesse, antes alguma coisa interessante deveria calhar a acontecer. Parece complicado, mas a ela tudo interessava.

Só que ela estava numa sala de aula, e árvores, postes e casinhas não costumam correr em direção a salas de aula. E esse não era o único obstáculo: ela ainda não tinha uma idéia pré-formulada sobre o assunto, já que nada a tinha feito pensar sobre aquilo antes. Ela já pensara sobre a vida, sobre emprego, sobre polêmicas de noticiários, sobre sexo – mas quase não se falava sobre sexo no vestibular.

Pois é. Estava fazendo a prova do ENEM, e nem sabia o que escrever na redação. Não que desse muita importância àquela prova, mas havia toda uma expectativa quanto à sua nota, e ela estava farta de ouvir críticas de uns metidos a profeta que diziam que ela não passaria no vestibular se continuasse daquele jeito. “Daquele jeito”. Aliás, ela odiava essa mania de profetizar por meio de palavras que não dizem nada, com a pretensão de dizer tudo. Aquele era o jeito dela, oras. Dedicava-se ao seu blog – ela gostava de escrever - e não a estudar matemática. E isso não significava que seria reprovada.

Exatamente por isso, deveria trabalhar para escrever aquela redação da melhor forma possível, para depois esfregar, metaforicamente, sua boa nota na cara de todos os profetas. Metaforicamente, porque se o fizesse literalmente diminuiria a vida útil do papel com sua nota.

Mas ela não tinha uma opinião formada sobre o aborto, e aí? Para ela esse era um daqueles assuntos dependentes do caso. Além de envolver diversas outras questões, como o começo e o direito à vida. E ela estava parcialmente paralisada, igual a certa pintura renascentista, mas o seu relógio digital continuava a piscar um número diferente a cada minuto. Alguém ao lado mastigava um Passatempo, e ela sequer podia pedir um sem que sua prova fosse tomada e a ela fosse atribuída um zero vermelho. Não. A caneta do vigia era preta. A dela era azul. Não, não. Foco! Não é caneta, é aborto. Aborto. Hm... Já “sei”.

Você acabou de ler um texto que reflete, ou pelo menos deveria refletir a "angústia do processo criativo". Esse era o tema da aula da última terça-feira de Técnicas, e resolvi publicá-lo aqui. (Gostari
a de ouvir a sua crítica construtiva).





Angústia (a mãe do artista), de David Alfaro Siqueiros. Ainda que jornalistas e publicitários não sejam artistas, vivem a mesma etapa do processo de criação.

quarta-feira, 19 de março de 2008

O poder do "Não, peraí!"

Geralmente, quando acho que uma pessoa está completamente errada, eu falo:
- Não, peraí!
É uma frase - deriva de "não, espere aí" - que me confere poder por transferir para mim todo o foco da atenção. Vejamos:

Se um grupo de pessoas está conversando sobre morangos, dizendo que eles são amarelos e salgados, por exemplo, eu digo "Não, peraí!", e todas as pessoas passam a olhar para mim; eu viro o centro das atenções, e todos vão ouvir a minha opinião.

É importante dizer, no entanto, que todo o "poder" conferido pelo "Não, peraí!" é proveniente da idéia de subversão, o que requer que haja uma boa explicação depois. Isso, porque poucos são corajosos o suficiente para discordar de um grupo de pessoas na frente desse grupo de pessoas. E é por esse motivo que, depois de usar o "Não, peraí!", é indispensável que se dê um bom argumento; caso contrário, o seu "Não, peraí!" corre o risco de ser visto como uma mera subversão sem base, estando sujeito à perda total de credibilidade.

Há coisas específicas que despertam o "Não, peraí!" de cada pessoa. O meu, por exemplo, vem à tona todas as vezes em que ouço aquela música da bermuda, do Kid Abelha:

- Tira essa bermuda, que eu quero você sério - Diz a Paula Toller pra alguém.
- Não, peraí! - Digo eu. - Se o cara já não está sério usando a bermuda, imagina se ficar só de cueca! Não, Paula. Você deveria dizer "Troca essa bermuda por uma calça social, que eu quero você sério", entendeu?

Outra coisa, é a música da Xuxa:
- A abelha faz o mel; bicho-da-seda, o algodão. - Grita a Xuxa.
- Não, peraí!!! - Grito eu, mais alto ainda. - Putz. Quer acabar de vez com a inteligência da criança? Se o meu filho repetisse de ano por um décimo só porque disse na prova que o bicho-da-seda faz o algodão, eu processaria a Xuxa.

Mas não é só isso que me tira do sério. Tem vezes em que o meu "Não, peraí!" acontece em cadeia, e eu perco o controle de vez. Se alguém é intolerante com outro alguém, por exemplo...

- Blá, blá e blá! Blá! Blá! - Diz a pessoa, manifestando a sua intolerância.
- Não, peraí! - Digo eu, sendo intolerante com a pessoa.

"Ué, mas se eu estou sendo intolerante com uma pessoa intolerante, eu estou sendo intolerante! Não, peraí, Monalisa! Pára com essa intolerância toda, criatura! Mas não, peraí! Se eu não aceito a minha intolerância com a pessoa intolerante, eu estou sendo intolerante com a minha intolerância!"

E por aí vai...

sexta-feira, 14 de março de 2008

Duas metades incestuosas

Há pouco eu estava visitando blogs pra angariar parceiros de links. Sabe como é, é preciso divulgar. Mas não é de divulgação que eu vim falar aqui - publicidade não é a minha área, apesar de estudar Comunicação Social.
Acontece que, em um dos blogs, o post mais recente falava sobre metade de laranja. Não era blog de culinária: "metade de laranja" se refere a "cara-metade", essas coisas, entende? A menina dizia não acreditar nesse papo de metade de laranja, e é sobre isso que vou falar.
Vim falar que eu acredito, sim, na existência de uma outra metade da laranja, até porque já comi uma laranja inteira. Logo, laranjas inteiras existem!
Piadinhas à parte, acreditando ou não em laranjas de atividades lícitas - porque nas ilícitas só não acreditam as bananas - acontece que todo esse papo me fez "viajar".

Voltando às laranjas de romances, acabei concluindo que, ao ter um relacionamento amoroso (ou apenas "ficoso") com a sua outra metade da laranja, você está cometendo um incesto.
Sim, incesto. Ou você não sabe que, na sua sociedade, ter relacionamentos desse tipo com o seu irmão gêmeo é tabú? Isso, se você não vier de alguma tribo indígena pré-colonização.
Pois bem. Visite qualquer laranjeira, e você verá laranjas inteiras nascendo; elas geralmente não nascem partidas ao meio. Portanto, a não ser que você faça parte dessa mínima parcela de laranjas mutantes (x-laranjas, sei lá), é melhor fugir da sua outra metade na balada.
Hm...

Então, de duas, uma. Ou não sou filha única, ou sou uma X-Laranja.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Flagra

Eu não sou paranóica, mas se quisesse ser, não seria difícil. A foto acima é um bom exemplo disso.
Olha o cara de blusa verde, em segundo plano. Foi fotografado assim, comendo. Sem mais nem menos alguém clicou o botãozinho da câmera e eternizou a imagem do cara comendo.
Não estou insinuando que tenha algum problema em comer num restaurante, mas não é todo dia que você se fotografa comendo.
É até meio catastrófico o que vou dizer mas, dependendo da pessoa e da situação na qual ela foi fotografada, isso pode gerar lucro pra algum psicólogo, se é que você me entende.
Claro que nessa minha teoria tem (muito) da minha mania de exagero, mas imagina: Um mosquito pousa bem ao lado do seu nariz. Apavorado como está em se livrar da dengue, você mata o mosquito com o seu dedo indicador, e na hora exata tem um infeliz que captura a cena. Pronto. Provavelmente, a sua imagem (supostamente) tirando meleca vai aparecer, num prazo de uma semana, em algum blog de blogueiro sem assunto.
Agora, imagina quantas Monalisas Marques não estão espalhadas em álbuns de orkut, flagradas em alguma situação engraçada ou comprometedora.
Curioso, não? Se eu aparecer em alguma foto sua, por favor, me envie. Eu estou louca pra ver.

domingo, 2 de março de 2008

Odeio mania de Balão Mágico

Desculpa, viu. Mas eu tenho que desabafar. Porque, putz!, eu odeio quem fica cantando aquela música do Balão Mágico. Quer dizer, não todo mundo, depende da idade. Vou explicar:

Eu estava numa festa. Eu, meu pai, minha mãe, os anfitriãos, e mais uns cinqüenta rostos desconhecidos. A maioria tinha mais de vinte e poucos anos. Som, deejay provisório, aquelas cadeiras de metal com nome de cerveja e, claro, cervejas. Umas três garotas estavam dançando forró. Três. Forró. Juntas. Imagina. Começou a tocar funk e elas se sentaram como todos os outros; tem gente que só dança funk no meio de muita gente, porque tem vergonha da letra. Eu sou desse tipo de gente.

De qualquer forma, quando as garotas sentaram, o deejay provisório sentiu-se desonrado e, a fim de provar a si mesmo a sua capacidade de animar uma festa, apelou para as músicas de infância. Aquelas de final de festa de adulto. Sim, porque em festa de criança, músicas de fim de festa são aquelas de adulto.

Claro que todo mundo começou a dançar. Menos eu. Não sou anti-social, gosto de dançar. Mas é que eu tenho 18 anos, e Balão Mágico não lembra a minha infância; até porque eu só conheci "Balão Mágico" lá por volta dos meus onze anos, através de um programa de fofoca que falava sobre a Simony (e eu só sei que o nome dela é Simony porque acabei de perguntar à minha mãe).

E é por isso que eu não estava dançando, mas também não estava "emburrada" num canto. Eu só fiquei sentada, sorrindo de volta pra quem sorria pra mim, e tirando fotos quando me pediam... Até que eu vi uma garota (que, a propósito, não tem nada a ver com as outras três do forró). A garota estava pulando sozinha. Isolada. Ao lado dela estava uma outra. As duas, isoladas, pulando. Pulando na música do Balão Mágico.

- Tira uma foto da gente? Nossa, que saudade desse tempo! - A maior perguntou.
- Tiro. - Peguei a máquina.

(Click)

- Quantos anos vocês têm? - Eu perguntei.
- Eu tenho quinze, ela, quatorze. E você?
- Dezoito.

Agora, vamos lá. Eu tenho dezoito anos, nasci em 1989. "Balão Mágico" acabou em 1986. É por isso que eu não acho graça; sou da geração "Xou da Xuxa"! Acho graça no Carlitos, mas é diferente.
E putz! Elas vêm me dizer que têm saudade de Balão Mágico??? Eu sou mais velha! Se não tem nada a ver com a minha infância, muito menos com a delas!
Apesar de que, vai ver, a mãe delas ficava repetindo o DVD quando elas eram crianças. Mas não. Naquela época não tinha DVD.

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