segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Coisa de gente grande

Descobri uma mania que "pega". Não sei bem o porquê, apenas tenho minhas teorias, mas pega.

Lembro que, quando era criança, meu primo me colocava na frente da tevê e ficava me perguntando os nomes difíceis dos atores.

- E esse? Quem é esse aí? - Lá vinha ele.
- Arrold Xazenéguer. - Eu respondia.

Agora, depois de alguns meses como adulta, me dei conta de que isso acontece com qualquer criança. Pode até ter suas diferenças, mas conserva a mesma essência.
Tenho um outro primo, de três anos, a quem todos chamam de Neném porque a mãe inventou de lhe dar um nome, digamos, pouco usual. Toda vez em que minha mãe vê o garoto, pergunta qual é o nome dela. Isso, dela.

- Neném, qual é o meu nome? E essa aqui (apontando pra mim), quem é ela?

Pois bem, isso é mania. E foi presenciando minha tia fazer isso que minha mãe pegou a tal mania, que passou pra minha avó, que passou pro resto da família. Digo, menos pra mim. Eu lembro de como era incômodo ver os adultos rindo de mim quando eu falava o nome de alguém e, agora que estou no lugar deles, procuro não sair por aí irritando as criancinhas. Sim, porque elas têm sentimentos do tipo "ainda não corrompido", o que significa que não hesitam em demonstrar o que sentem sobre determinada coisa.

Confesso que quando vejo criancinhas fofinhas me dá vontade de perguntar qual é o meu nome, mas eu me controlo. E sabe, talvez essa vontade louca de ser reconhecida pelas crianças seja a forma inconsciente de expressar a saudade que sentimos da nossa infância. É, pode ser. Mas prefiro me expressar sem irritar quem admiro.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Quem dera tivesse dado certo...

- Cara, tive uma idéia pra melhorar esse mundo de merda em que a gente vive.
- Fala!
- Vamos inventar uma história que imponha um monte de regras. Se o pessoal seguir as regras, o mundo vai ficar uma beleza.
- Hum...
- Só que, pra dar certo, ninguém pode duvidar da história.
- É, uma boa. Mas como a gente faz pra ninguém duvidar? Não é chato ficar contando mentira não?
- Mentir pra consertar os estragos de outras mentiras? Não acho errado não.
- Pois é.
- A história tem que ser grande.
- Boa. Vou pegar lápis e papel.

História criada e divulgada, todo mundo acreditou. Porém, alguns mil anos depois, nenhuma regra era ainda imaculada. Matava-se e desrespeitava-se, dentre muitas outras coisas, sem limitações.
Espero o dia em que vão entender que acreditar e dizer aos outros que acredita não basta; é preciso cumprir.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O Comprovante

- Nêga, arrumei um emprego. – Hesitante, como sempre. Quando andava, o quadril e a cabeça chegavam antes que o resto do corpo.
- E quem dá trabalho prum mindingo como tu, Branco? – Debochada, como sempre. Ela tinha a pele mais clara que a dele, mas ele tinha uma micose na testa; por isso o apelido.
- Seu Expedito. Tava hoje no ponto e ele veio. Disse se eu quiria ajuda dele, eu disse que quiria uns trocado e ele disse que me dava um trabalho. Trabalho não, emprego. É coisa séria, Nêga.
- E tu disse que é burro? Que só sabe lê que mãe Bina ensinô?
- Disse.
- Trabalho de quê?
- Emprego, Nêga. É coisa séria. Em-pre-go de motorista.
- Tu não sabe dirigi!
- Ele disse preu ir pras aula, que ele paga. E disse preu levá, nesse lugar desse papel, minha identidade, cê-pê-éfe e comprovante de residência.
- Mas se tu mora na rua!
- Eu dô meu jeito, Nêga. Pára de “agrorar” queu dô meus jeito.

- É aqui queu entrego os documento pra dirigir?
- É. O senhor trouxe o comprovante de residência?
- Taquí.
- ...
- Aqui!
- Senhor, o comprovante de residência deve ser uma conta.
- E eu paguei por isso.
- Uma conta de luz, de gás, de água. Caixa de pizza não serve.
- Mas se entregaro na minha casa, é queu moro numa casa!
- ...
- ...
- Segurança!

Ele saiu antes que os homens chegassem. Devolveu a caixa de pizza à lixeira, e foi com seus trapos de volta para sua Nêga. Não é preciso dizer quem riu de quem.

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