segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Pedro Pedreiro

Pedro Pedreiro preferia um péssimo jornal a um bom livro. "Livros contam mentiras", ele explicava. "As histórias do jornal são de verdade", e isso lhe dava a esperança de mudar de vida. Gente pobre que enriquece, gente rica que empobrece. Políticos espertos. A pizzaria do seu Manolo. O jornal também pautava os assuntos de suas conversas - por mais que, para ele, só "desse o que conversar".

Tijolo
- Ih, se separaram de novo.
Cimento
- Também, ela posou na Playboy!
Massa
- Gostosa...
Lixa
- Mó galinha, meu. Ciúme da porra.
Tinta
-Eu pegava.
Café
- Galinha não vôa, então não pousa.

Mas só lia as manchetes. Elas, sim, é que eram legais. O resto tirava a fantasia, contradizia a manchete e aproximava a história do seu cheiro de suor seco acimentado. Só lia as letras grandes porque queria esquecer. E o sonho do jornalista, coitado, de mudar o mundo, virava programa de auditório ou Discovery Channel, quando algum panda nascia.

Tijolo
- Esse troço de panda nasce que é uma beleza!
Cimento
- Tão em extinção, seu animal.
Massa
- Vai nessa. Só tem notícia de panda nascendo.
Lixa
- É. Vê se nasce algum cavalo. Algum leão.
Tinta
- O pinto dele é pequeno, sabia?
Café
- Deve ser maior que o teu.

Foi justamente numa dessas que ele virou foto de manchete. Não, não morreu. Pelo contrário. Como não tinha tempo nem cabeça pra fundar uma Igreja, se limitou a construir uma. Levava a "luz de Deus" aos outros pedreiros e, assim, Deus o recompensava fazendo com que subisse na vida. Desceu do morro, comprou casa pras férias, pro cachorro, e até um pedacinho de praia pro iate.

Um real
- Só isso, irmão?
Cinco
- Generosidade é uma virtude de Deus!
Dez
- A avareza é pecado, irmão!
Cinqüenta
- O demônio cuida dos pecadores!
Duas de cinqüenta
- O que vocês derem aqui hoje, vão receber em dobro amanhã!
Cheque
- Aleluia!

Um dia, foi jogar na Bolsa. Tolinho. Não sabia que é pecado misturar fé e jogo. Perdeu tudo.
Foi foto de manchete outra vez.

domingo, 14 de setembro de 2008

Você diz?

Falar sem dizer nada é doença. Quem sabe, mais uma para a lista de sintomas do fim do mundo - vem logo depois da experiência com o colisor de hádrons, na opinião de muitos. Eu, particularmente, até acho graça nele. Simpático.
Tem gente que fala, fala, fala e não diz. É uma doença com dois graus possíveis de gravidade:

1. Quando falam e não dizem porque a palavra que falam não é compatível com o que se quer dizer. Acontece muito com "literalmente". Acham bonito falar "literalmente". Como se bastasse falar "literalmente" para se dizer letrado.
Numa enquete da comunidade do filme Bicho de Sete Cabeças, o cara diz:

"acredito que uma questão importante, é que um cidadão do bem que apenas fumava maconha, foi colocado no meu de pessoas que realemnet tinham problemas, e fizeram um bicxho de sete cabeça LITERALMENTE"

Tirando os erros ortográficos e cia, "literalmente" quer dizer "ao pé da letra". Ninguém construiu um bicho de sete cabeças no filme.
Não esculpiram em madeira, em papel machê nem em nada. Por quê, então, esse "literalmente" (todo em letra maiúscula)?

2. Quando a professora fala e não diz, porque ela não entende que o coitado do aluno não teve tanto tempo quanto ela pra digerir o que ela ensina. Acontece, por exemplo, quando se ensina o que é um emigrante e um imigrante. Geralmente fala-se em externo, interno, expirar, inspirar, blá blá blá. Bobeira.
Por quê ninguém me ouve?
Basta fazer assim:
Pensa numa pessoa muito chata. Muito mesmo.
Essa pessoa entrou no seu país? Iiiiih, migrante!
Essa pessoa saiu do seu país? Êêêê, migrante!

Pronto.
Tirei dez em Geografia na quinta série, e todo mundo achou que eu prestava atenção às aulas. Tsc tsc tsc.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Coisas da Bíblia...

Seu sobrenome era Carneiro Parente.
Sempre foi sacaneado.
Desde o Jardim de Infância, o apelido era Noé.
Arrumou um novo emprego.
Solteiro, se apaixonou pela chefe.
Sra. de Coelho era o nome dela, mas era casada.
Numa tentativa deseperada, comprou-lhe uma anta de pelúcia.
(Ela adorava animais).
Pediu o divórcio de Sr. Platão e decidiu corresponder o amor de Carneiro Parente.
No convite para a cerimônia: "Sr. e Sra. Carneiro Parente de Coelho".

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Coordenadas

Ao contrário do óbvio, seres menores são mais fáceis de se encontrar, desde que haja alguma referência. Dom Camarão, por exemplo. Por ser um ponto, ele está sempre em algum lugar. "Dom Camarão está no Coral 76, setor Laranja". Mas imagine os outros animais. Pense só como é difícil estabelecer as coordenadas de um polvo. Cada tentáculo está em um Coral diferente, ele é praticamente um asterisco.

E foi exatamente este problema que determinou a solteirisse infinita de Dona Baleia. Ela não era ponto nem asterisco, era reta, e como tal se identificou assim a seu pretendente:

- Querido, estou a partir do Coral Azul 21. Venha me ver.

Mas, enquanto esperava, passou uma corrente de água fria. E o seu próprio espirro funcionou como uma turbina. O jato foi para um lado, e Dona Baleia foi impulsionada para o outro. Saiu do lugar.
Quando o pretendente chegou, não a encontrou. Até nadou em circunferência a partir do ponto de encontro num raio de 30 metros, que era o que a sua amada media, mas só conseguiu alguns quilinhos de plâncton.

E, sabe, baleias não são como os seres humanos. Não saem beijando qualquer um - e apesar da possibilidade disto se dever ao fato de que baleias adultas não cabem nas boates do fundo do mar, não podemos negar como esse comportamento é admirável.
Quando as baleias amam, amam para a vida toda. Não acaba. É impossível substituir. E quando seus amores não comparecem a um encontro, a depressão é tão grande, tão colossal, tão pesada, que elas simplesmente desistem de viver. E o parceiro fica só a vida toda.

Por isso, Dona Baleia agora é titia. E só.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Wall-E

Simplesmente não dá pra ter noção da quantidade de coisas interessantes que as pessoas perdem por aí.
Sério.
É normal não prestar atenção ao pombo que mira na sua cabeça e depois olha pra baixo pra conferir o resultado - e acredite, eles fazem isso. Mas não prestar atenção ao filme que você pagou pra assistir no cinema é demais.

Ontem fui assitir a Wall-E. É lindo. E não digo isso só pela vontade que me deu de ter um robozinho, mas pelas grandes sacadas do filme. Dentre tantas, destaco três: Primeiro, só a barata sobrevive em todo aquele caos. Segundo, todo o mito que é criado sobre a Terra pelos seres humanos, que tem seu auge no momento em que o capitão fica de pé. Terceiro, quando o filme acaba.
Pois é. Quando acaba.

Logo depois do ponto final do filme, começa a parte mais legal. A história pós-chegada da humanidade à Terra é contada: começa com rabiscos em cavernas no estilo pré-histórico, passa pelos mosaicos (e por tantos outros estilos artísticos), e chega ao surrealismo.
É a história do ser humano contada através da evolução da arte. É como se os "gordinhos" do filme tivessem retrocedido com tanta tecnologia. Uma sacada genial a qual quase ninguém prestou atenção porque estava ocupado saindo da sala do cinema.

Por isso, vou lançar a campanha:
"Fique sentado para os créditos do filme. Eles sempre têm alguma coisa pra contar."

Ok?

terça-feira, 15 de julho de 2008

Expectativas e seus encantos

Quebrar expectativas é uma ótima forma de chocar e fazer piada, principalmente quando o contexto é o sexo - sejam as partes do corpo humano diretamente relacionadas a ele (praticamente todas), ou o ato em si.

Mas, para que tenha efeito, a expectativa deve ser quebrada no ponto certo. É uma questão milimétrica. São frações de segundos, onde tudo depende da palavra exata. Mas nem todo mundo entende isso, e acaba transformando tudo numa loucura.

Ah, eu tenho alergia à hora do parabéns. Todas as vezes em que começam a cantar aquela musiquinha do "ô fulano vou comer seu bolo", me sobe um calor dos pés à cabeça, e dá uma vontade imensa de gritar. Nada contra a musiquinha, mas é que depois dela, sempre cantam a da torta, e aí...

"Ahá! Uhul! Ô Fulano eu vou comer seu bolo!"

Pronto. Perfeita. "Ô Fulano eu vou comer"... O que rima com "uhul"? Pois é. Quebraram a expectativa na hora certa, e daí vem toda a graça.

Agora...
"A chuva cai, a rua inunda, ô Fulano eu vou comer seu bolo."

Ridículo. Escroto. Cadê a rima? O que rima com "uhul" não rima com "inunda", você me entende? Assim, a expectativa é quebrada antes do fim, e então tem-se todo um resto de letra que não dá a mínima vontade de ouvir. Essa música, definitivamente, murcha qualquer festa de aniversário. Não tem nada a ver!

Por quê, então, não cantam:
"A chuva cai, a rua inunda, ô Fulano eu vou comer sua torta!"

Aí, sim. A expectativa é quebrada só na última palavra, e aí tudo faz sentido.
A rima perfeita! O que rima com "inunda"?

Bunda!

Meu pai. Cantaram a versão certa.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Apaixonada


O despertador tocou.
Aquela musiquinha infame que sempre interrompia o clímax de tudo, e ela acordou.
Numa boa. Estranhamente não-irritada.
Abriu a janela barulhenta, aspirou o ar poluído típico de capital.
Sorriu.
Ela estava apaixonada, mas não era por alguém. Era por todos. Por tudo.
Estava apaixonada pela vida. E tudo era tão lindo naquele dia, tão poético, tão fluido.
A garotinha de sempre a chamou de tia tentando vender um chiclete vagabundo.
Ela comprou. Sorriu.
No metrô, repetiu PDA três vezes, até chegar em Botafogo. Andou no ritmo da música. Chegou até a bater palma discretamente.
Foi dormir num suspiro, na esperança de acordar apaixonada no dia seguinte.

PDA é do John Legend. Para quem quiser se apaixonar.

domingo, 1 de junho de 2008

Mãe Valéria

Valéria era mãe duas vezes, embora só tivesse uma filha e ainda não fosse avó. De manhã, antes da filha ir pra escola, era mãe de Suzana. Fazia o café, passava manteiga no pão, dava alpiste ao periquito. À tarde, pra comprar café, manteiga, pão e alpiste pro dia seguinte, era Mãe Valéria de Ogum. Virava cartas, lia mãos, jogava búzios, assistia à bola de cristal.
Valéria gostava de ser mãe. De Suzana e de Ogum. Realizava os dois ofícios com orgulho e precisão. Era famosa na cidade por nunca ter falhado no destino de nenhum de seus clientes. Mas no de sua filha...

- Suzana. Esse troço de faculdade é pra rico. Esquece isso, que eu te ensino o meu caminho.

Mas não adiantou. A filha acabou passando no vestibular.

- Mãe, passei!
- Parabéns. Pra quê?
- Odontologia!

Valéria sorriu, mas não tinha gostado. Deixaria a filha estudar, mas com uma condição:

- Você vai trabalhar no meu lugar todas as manhãs. Das sete às onze, que é pra dar tempo de você almoçar. Não precisa esperar eu chegar pra sair.

Boa filha que era, Suzana aceitou tudo numa boa. E todas as noites, quando as duas se encontravam em casa...

- Querida, o que você fez hoje?
- Vi dente.
- Ah, menina. Você tem futuro!

Texto em homenagem à Suellen Gloria.
Ou Su, Susu, Susuca, Suzana...

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Socorro

- Mãe, vou pra chopada.

Recém-adulta, Socorro era superprotegida desde que nascera.
E como para Lurdinha, a superprotetora, sua filhinha estava sempre na iminência de ser seqüestrada, uma reunião de jovens bêbados lhe parecia ser uma oportunidade para a consumação da tragédia. Para evitar sobressaltos, a mãe resolveu ir à vigília do bairro.
Rezou, rezou, pediu proteção à sua cria, e depois voltou pra casa.
Às três da madrugada, na rua silenciosa, descobriu que havia esquecido de levar as chaves.
Bateu à porta.
Nada.
Socorro tinha um sono de pedra.
Resolveu chamar.

- Filha, abre a porta. - Sussurou pela fechadura.
Nada.
- Socorro, abre a porta. - Disse baixinho pela frestinha da porta.
Nada.
- Ô Socorro! - Falou, forçando a maçaneta.
Nada.
- Socorro! - Gritou, dando socos na porta.
Nada.
- Socorro! SOCORRO! - Berrou.
Nada.

Na casa ao lado, a vizinha:
- Amor, você ouviu? Quem será que o maníaco está atacando dessa vez?
- Esquece, Rita. Finge que não ouviu, que senão sobra pra gente.

domingo, 11 de maio de 2008

Em breve

Em breve eu coloco mais textos aqui.
É que resolvi curtir outras coisas, e as outras coisas acabaram tomando o tempo do blog.
Mas eu reconcilio, pode deixar.

Minha mãe e o Jack. Jack é o cabideiro customizado; minha mãe dispensa descrições.
Ô manhê!
Feliz dia das mães!

sábado, 3 de maio de 2008

Vovó Adélia


Abaixou o fogo e foi para o sofá; essa costumava a ser a sua segunda hora preferida do dia, perdendo apenas para o beijinho matinal de seu netinho. Mas desde que flagrara a nora obrigando o garoto a cumprimentá-la na volta da escola, se desencantara: “Ah, essas noras!”, pensava. E foi assim que a lista de melhores momentos do dia se modificou (sim, ela sofria de uma compulsão por listas e listras).

Adélia agora aproveitava, ao máximo, aqueles trinta segundos - os quais ela preferia chamar de “meia hora”, já que assim os fazia durar mais. Às dez e quinze abaixava o fogo do arroz, colocava dois dedinhos de Vodca na caneca de chá e se sentava no sofá, de frente para a televisão. Assistia ao GNT. Gostava de falar assim, “ao GNT”, porque lhe dava a fantasia de ser culta. E só então bebericava a Vodca.

Molhou os lábios. “Ultra Corega Creme fixa sua prótese dentária...”. Ah, como ela odiava esses comerciais; serviam apenas para lembrá-la de que tinha idade suficiente para não pagar a passagem de ônibus. Suspirou de alívio quando começou o programa de moda; Adélia se inspirava naquelas mulheres, mesmo sendo (no mínimo) quarenta anos mais velha que elas. “... A nova moda acaba de chegar ao Brasil, e é para ficar!”, dizia a apresentadora, e Adélia ficou fascinada. As super modelos não desfilavam seus quase dois metros em saltos altíssimos, mas em botinas. Botinas de plástico pretas, verdes, coloridas, com bolinhas, e (oh!) com listras!

Adélia compraria uns cinco pares de botinas listradas com as mais diferentes cores, mas vovós de dentadura não se vestem de acordo com a “última moda” – pelo menos não em público – e ela queria ter uma pitadinha de reconhecimento por parte de seu neto. Mudou para o programa da Ana Maria Braga e escondeu a Vodca: Paulinho chegaria a qualquer momento da escola.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Nossa amiga Paradoxa

Conheço uma pessoa capaz de causar muita confusão interna. Não é vilã nem tem super poderes, é de carne e osso mesmo, mas confunde profundamente. Para não revelar sua identidade, daremos-lhe o codinome "Paradoxa".

Paradoxa é mulher, por volta de seus trinta e poucos. A cor de seus olhos e cabelo é duvidosa graças aos atributos tecnológicos de sua era, mas isso não vem ao caso; o que vem, é que Paradoxa é uma criança grande. Note a falta de aspas. Meu pai, sim, é uma "criança grande", com toda a sua alegria de viver, mas Paradoxa é uma criança grande (sem aspas), uma pessoa que cresce fisicamente e só.
Seu corte de cabelo é infantil, seu (des)penteado é infantil, seu sorriso é infantil, bem como também o são seu jeito de falar, implicar, perguntar e andar. Quanto a se vestir, não confeccionam roupas de criança para o seu tamanho - o que, convenhamos, não faz muita diferença, já que as crianças cada vez mais se vestem como adultos.
Por causa disso, Paradoxa causa, de impacto, o nosso estranhamento, mas também desperta interesse. E então nós deixamos que ela fique, e ela vai ficando e ficando, grudando como chiclete de criança, virando aquela coisa que incomoda e que se torna indesejável. Dá alergia, provoca dor de cabeça, febre, vira Aedes aegypti e a gente a repele.
Mas uma vez que estamos descontaminados, longe do perigo, Paradoxa se transforma aos nossos olhos: Sua distância faz aflorar em nós um sentimento de ternura. "Poxa, ela é só uma criança grande!", nós pensamos, e deixamos que ela volte. E tudo isso se torna um ciclo vicioso, fazendo de nós outros paradoxos - em outras proporções e condições, mas igualmente contraditórios.

E isso me faz concluir que existe muito desse tipo por aí. Se é que não se inclui nessa categoria toda a humanidade.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Nome de gringo

A costureira corria pela sala, atrás da criança que fazia sonoplastia com a boca:

- Neo, pára com essa idéia e vai pro banho!
- Por quê? – Disse a criança, pulando do chão para a mesa.
- Porque sim. A “ASA” fica longe daqui.
- É NASA, mãe. – Do chão pro sofá.

Alguém entrou na casa.

- Pelo amor de Deus, me ajuda com esse menino, Iracema! Não quer devolver o capacete do teu filho porque inventou de ser astronauta.
- Deixa ele, minha irmã, que isso é coisa passageira.
- Não é não! Eu vou até a Lua! – Do sofá pro vaso de planta.
- Ele acha que a Lua é de queijo! – Gritou a costureira, pisando firme até a cozinha e desistindo do garoto.
- Não acho não! Não sou burro. – Do vaso de planta pra mesinha de centro.
- Escuta, Neo. Esquece isso, que a sua mãe já está nervosa.
- E daí?! – Do sofá, de volta pra mesinha.
- Está vendo? É nisso que dá ficar dando nome de gringo pra criança! – Falou Iracema, indo encontrar a irmã na cozinha.

- E qual é o problema? Tu nunca viu “Matrix”? – A costureira se ofendeu.
- Acontece que “Neo” rima com “Neil”, de Neil Armstrong. E seu filho até que tem o braço forte.
- É, Iracema. Teu nome não é de gringo, mas tu é nerd demais pro meu gosto.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Minha Quista


Desempregado como estava, ocupava-se em pensar, e pensando ele inventava. Ficou tanto tempo sem emprego, que a prática acabou virando vício, e continuou a praticar mesmo depois de arranjar uma nova assinatura na carteira de trabalho.
Certo dia se meteu a pensar sobre origens de palavras; passou-lhe pela cabeça que "querido" derivava do verbo "querer", e sendo assim, que era uma palavra errada:

- Se vem do verbo "querer", o certo seria "quisto", e não "querido". - Constatou ele, e quis colocar a descoberta logo em prática. Quando a esposa chegou em casa, cansada, descabelada e de baixa auto-estima, recebeu-a com um abraço e disse:

- Minha quista!
- O quê?
- Meu amor, minha quista!
- Que está aonde?
- Eu disse "quista".
- Eu ouvi. Mas onde está esse seu amor?
- Você não entendeu...
- Entendi muito bem! Eu estou aqui. Se esse seu amor não está aqui, então está tudo acabado.

E ele ficou sem esposa. Perdeu por um lado, mas talvez ainda lucrasse por outro: Agora estava livre para encontrar alguém que compreendesse o seu vício.

sábado, 29 de março de 2008

Mortadelas, e toda a saudade que as acompanha

Descobri o blog de um amigo. Aliás, esse foi um caso raro em que conheci o blog através da pessoa, e não ao contrário. Engraçado como esse povo carioca simplesmente não tem blog - ou incrível como eu não acho blog carioca por aí. Mas o assunto de hoje não é blog, é mortadela. Um dos posts do "blog de um futuro comunicólogo desempregado" me inspirou a escrever sobre mortadelas.

Lembro que, quando criança, adorava mortadelas e tudo o que as acompanhava. Domingo, pão francês, o barulho do jornal do meu pai, o cheirinho do café da minha mãe, minha avó tomando banho de mangueira no quintal... Tudo isso sempre foi muito marcante na minha infância perfeita, até que as "coisas" começaram a morrer.

Primeiro foi o Ayrton Senna, e depois disso ninguém mais se reuniu pra gritar de alegria. Depois foi o grilo verde que eu roubei numa viagem e, daí em diante, foi como se a natureza me castigasse pelo pedacinho dela que eu havia tirado daquela fazenda. O cachorro cor-de-fogo que sujava o meu uniforme da escola todos os dias morreu, sem falar nos outros três.

Mas o pior de tudo foi o que aconteceu com alguém que não era grilo nem cachorro, que não era bicho - e eu não estou falando do Senna. Quando isso aconteceu, eu virei adulta e deixei de comer mortadela.
Mortadela. O nome é meio estranho, mas não é por isso que eu parei de comer. É que eu prefiro guardar como lembrança o gostinho da mortadela da minha infância, aquele gostinho que era imaculado e inocente, pela falta de uma grande saudade no peito.

Meu pai, minha mãe, e a Monalisa da época das mortadelas

segunda-feira, 24 de março de 2008

Insights, só em coletivos

Andar de ônibus lhe avivava as idéias. Aquele apinhado de pessoas desconhecidas evitando se entreolhar a fazia pensar; não, mais que pensar: voar. Sempre que árvores, postes e casinhas corriam em sua direção, ela voava para dentro de si mesma e, a partir daí, tinha idéias magníficas. Mentira, esse “sempre” não era tão constante assim; para que todo esse ato - diga-se de passagem - sonolento acontecesse, antes alguma coisa interessante deveria calhar a acontecer. Parece complicado, mas a ela tudo interessava.

Só que ela estava numa sala de aula, e árvores, postes e casinhas não costumam correr em direção a salas de aula. E esse não era o único obstáculo: ela ainda não tinha uma idéia pré-formulada sobre o assunto, já que nada a tinha feito pensar sobre aquilo antes. Ela já pensara sobre a vida, sobre emprego, sobre polêmicas de noticiários, sobre sexo – mas quase não se falava sobre sexo no vestibular.

Pois é. Estava fazendo a prova do ENEM, e nem sabia o que escrever na redação. Não que desse muita importância àquela prova, mas havia toda uma expectativa quanto à sua nota, e ela estava farta de ouvir críticas de uns metidos a profeta que diziam que ela não passaria no vestibular se continuasse daquele jeito. “Daquele jeito”. Aliás, ela odiava essa mania de profetizar por meio de palavras que não dizem nada, com a pretensão de dizer tudo. Aquele era o jeito dela, oras. Dedicava-se ao seu blog – ela gostava de escrever - e não a estudar matemática. E isso não significava que seria reprovada.

Exatamente por isso, deveria trabalhar para escrever aquela redação da melhor forma possível, para depois esfregar, metaforicamente, sua boa nota na cara de todos os profetas. Metaforicamente, porque se o fizesse literalmente diminuiria a vida útil do papel com sua nota.

Mas ela não tinha uma opinião formada sobre o aborto, e aí? Para ela esse era um daqueles assuntos dependentes do caso. Além de envolver diversas outras questões, como o começo e o direito à vida. E ela estava parcialmente paralisada, igual a certa pintura renascentista, mas o seu relógio digital continuava a piscar um número diferente a cada minuto. Alguém ao lado mastigava um Passatempo, e ela sequer podia pedir um sem que sua prova fosse tomada e a ela fosse atribuída um zero vermelho. Não. A caneta do vigia era preta. A dela era azul. Não, não. Foco! Não é caneta, é aborto. Aborto. Hm... Já “sei”.

Você acabou de ler um texto que reflete, ou pelo menos deveria refletir a "angústia do processo criativo". Esse era o tema da aula da última terça-feira de Técnicas, e resolvi publicá-lo aqui. (Gostari
a de ouvir a sua crítica construtiva).





Angústia (a mãe do artista), de David Alfaro Siqueiros. Ainda que jornalistas e publicitários não sejam artistas, vivem a mesma etapa do processo de criação.

quarta-feira, 19 de março de 2008

O poder do "Não, peraí!"

Geralmente, quando acho que uma pessoa está completamente errada, eu falo:
- Não, peraí!
É uma frase - deriva de "não, espere aí" - que me confere poder por transferir para mim todo o foco da atenção. Vejamos:

Se um grupo de pessoas está conversando sobre morangos, dizendo que eles são amarelos e salgados, por exemplo, eu digo "Não, peraí!", e todas as pessoas passam a olhar para mim; eu viro o centro das atenções, e todos vão ouvir a minha opinião.

É importante dizer, no entanto, que todo o "poder" conferido pelo "Não, peraí!" é proveniente da idéia de subversão, o que requer que haja uma boa explicação depois. Isso, porque poucos são corajosos o suficiente para discordar de um grupo de pessoas na frente desse grupo de pessoas. E é por esse motivo que, depois de usar o "Não, peraí!", é indispensável que se dê um bom argumento; caso contrário, o seu "Não, peraí!" corre o risco de ser visto como uma mera subversão sem base, estando sujeito à perda total de credibilidade.

Há coisas específicas que despertam o "Não, peraí!" de cada pessoa. O meu, por exemplo, vem à tona todas as vezes em que ouço aquela música da bermuda, do Kid Abelha:

- Tira essa bermuda, que eu quero você sério - Diz a Paula Toller pra alguém.
- Não, peraí! - Digo eu. - Se o cara já não está sério usando a bermuda, imagina se ficar só de cueca! Não, Paula. Você deveria dizer "Troca essa bermuda por uma calça social, que eu quero você sério", entendeu?

Outra coisa, é a música da Xuxa:
- A abelha faz o mel; bicho-da-seda, o algodão. - Grita a Xuxa.
- Não, peraí!!! - Grito eu, mais alto ainda. - Putz. Quer acabar de vez com a inteligência da criança? Se o meu filho repetisse de ano por um décimo só porque disse na prova que o bicho-da-seda faz o algodão, eu processaria a Xuxa.

Mas não é só isso que me tira do sério. Tem vezes em que o meu "Não, peraí!" acontece em cadeia, e eu perco o controle de vez. Se alguém é intolerante com outro alguém, por exemplo...

- Blá, blá e blá! Blá! Blá! - Diz a pessoa, manifestando a sua intolerância.
- Não, peraí! - Digo eu, sendo intolerante com a pessoa.

"Ué, mas se eu estou sendo intolerante com uma pessoa intolerante, eu estou sendo intolerante! Não, peraí, Monalisa! Pára com essa intolerância toda, criatura! Mas não, peraí! Se eu não aceito a minha intolerância com a pessoa intolerante, eu estou sendo intolerante com a minha intolerância!"

E por aí vai...

sexta-feira, 14 de março de 2008

Duas metades incestuosas

Há pouco eu estava visitando blogs pra angariar parceiros de links. Sabe como é, é preciso divulgar. Mas não é de divulgação que eu vim falar aqui - publicidade não é a minha área, apesar de estudar Comunicação Social.
Acontece que, em um dos blogs, o post mais recente falava sobre metade de laranja. Não era blog de culinária: "metade de laranja" se refere a "cara-metade", essas coisas, entende? A menina dizia não acreditar nesse papo de metade de laranja, e é sobre isso que vou falar.
Vim falar que eu acredito, sim, na existência de uma outra metade da laranja, até porque já comi uma laranja inteira. Logo, laranjas inteiras existem!
Piadinhas à parte, acreditando ou não em laranjas de atividades lícitas - porque nas ilícitas só não acreditam as bananas - acontece que todo esse papo me fez "viajar".

Voltando às laranjas de romances, acabei concluindo que, ao ter um relacionamento amoroso (ou apenas "ficoso") com a sua outra metade da laranja, você está cometendo um incesto.
Sim, incesto. Ou você não sabe que, na sua sociedade, ter relacionamentos desse tipo com o seu irmão gêmeo é tabú? Isso, se você não vier de alguma tribo indígena pré-colonização.
Pois bem. Visite qualquer laranjeira, e você verá laranjas inteiras nascendo; elas geralmente não nascem partidas ao meio. Portanto, a não ser que você faça parte dessa mínima parcela de laranjas mutantes (x-laranjas, sei lá), é melhor fugir da sua outra metade na balada.
Hm...

Então, de duas, uma. Ou não sou filha única, ou sou uma X-Laranja.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Flagra

Eu não sou paranóica, mas se quisesse ser, não seria difícil. A foto acima é um bom exemplo disso.
Olha o cara de blusa verde, em segundo plano. Foi fotografado assim, comendo. Sem mais nem menos alguém clicou o botãozinho da câmera e eternizou a imagem do cara comendo.
Não estou insinuando que tenha algum problema em comer num restaurante, mas não é todo dia que você se fotografa comendo.
É até meio catastrófico o que vou dizer mas, dependendo da pessoa e da situação na qual ela foi fotografada, isso pode gerar lucro pra algum psicólogo, se é que você me entende.
Claro que nessa minha teoria tem (muito) da minha mania de exagero, mas imagina: Um mosquito pousa bem ao lado do seu nariz. Apavorado como está em se livrar da dengue, você mata o mosquito com o seu dedo indicador, e na hora exata tem um infeliz que captura a cena. Pronto. Provavelmente, a sua imagem (supostamente) tirando meleca vai aparecer, num prazo de uma semana, em algum blog de blogueiro sem assunto.
Agora, imagina quantas Monalisas Marques não estão espalhadas em álbuns de orkut, flagradas em alguma situação engraçada ou comprometedora.
Curioso, não? Se eu aparecer em alguma foto sua, por favor, me envie. Eu estou louca pra ver.

domingo, 2 de março de 2008

Odeio mania de Balão Mágico

Desculpa, viu. Mas eu tenho que desabafar. Porque, putz!, eu odeio quem fica cantando aquela música do Balão Mágico. Quer dizer, não todo mundo, depende da idade. Vou explicar:

Eu estava numa festa. Eu, meu pai, minha mãe, os anfitriãos, e mais uns cinqüenta rostos desconhecidos. A maioria tinha mais de vinte e poucos anos. Som, deejay provisório, aquelas cadeiras de metal com nome de cerveja e, claro, cervejas. Umas três garotas estavam dançando forró. Três. Forró. Juntas. Imagina. Começou a tocar funk e elas se sentaram como todos os outros; tem gente que só dança funk no meio de muita gente, porque tem vergonha da letra. Eu sou desse tipo de gente.

De qualquer forma, quando as garotas sentaram, o deejay provisório sentiu-se desonrado e, a fim de provar a si mesmo a sua capacidade de animar uma festa, apelou para as músicas de infância. Aquelas de final de festa de adulto. Sim, porque em festa de criança, músicas de fim de festa são aquelas de adulto.

Claro que todo mundo começou a dançar. Menos eu. Não sou anti-social, gosto de dançar. Mas é que eu tenho 18 anos, e Balão Mágico não lembra a minha infância; até porque eu só conheci "Balão Mágico" lá por volta dos meus onze anos, através de um programa de fofoca que falava sobre a Simony (e eu só sei que o nome dela é Simony porque acabei de perguntar à minha mãe).

E é por isso que eu não estava dançando, mas também não estava "emburrada" num canto. Eu só fiquei sentada, sorrindo de volta pra quem sorria pra mim, e tirando fotos quando me pediam... Até que eu vi uma garota (que, a propósito, não tem nada a ver com as outras três do forró). A garota estava pulando sozinha. Isolada. Ao lado dela estava uma outra. As duas, isoladas, pulando. Pulando na música do Balão Mágico.

- Tira uma foto da gente? Nossa, que saudade desse tempo! - A maior perguntou.
- Tiro. - Peguei a máquina.

(Click)

- Quantos anos vocês têm? - Eu perguntei.
- Eu tenho quinze, ela, quatorze. E você?
- Dezoito.

Agora, vamos lá. Eu tenho dezoito anos, nasci em 1989. "Balão Mágico" acabou em 1986. É por isso que eu não acho graça; sou da geração "Xou da Xuxa"! Acho graça no Carlitos, mas é diferente.
E putz! Elas vêm me dizer que têm saudade de Balão Mágico??? Eu sou mais velha! Se não tem nada a ver com a minha infância, muito menos com a delas!
Apesar de que, vai ver, a mãe delas ficava repetindo o DVD quando elas eram crianças. Mas não. Naquela época não tinha DVD.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Coisa de gente grande

Descobri uma mania que "pega". Não sei bem o porquê, apenas tenho minhas teorias, mas pega.

Lembro que, quando era criança, meu primo me colocava na frente da tevê e ficava me perguntando os nomes difíceis dos atores.

- E esse? Quem é esse aí? - Lá vinha ele.
- Arrold Xazenéguer. - Eu respondia.

Agora, depois de alguns meses como adulta, me dei conta de que isso acontece com qualquer criança. Pode até ter suas diferenças, mas conserva a mesma essência.
Tenho um outro primo, de três anos, a quem todos chamam de Neném porque a mãe inventou de lhe dar um nome, digamos, pouco usual. Toda vez em que minha mãe vê o garoto, pergunta qual é o nome dela. Isso, dela.

- Neném, qual é o meu nome? E essa aqui (apontando pra mim), quem é ela?

Pois bem, isso é mania. E foi presenciando minha tia fazer isso que minha mãe pegou a tal mania, que passou pra minha avó, que passou pro resto da família. Digo, menos pra mim. Eu lembro de como era incômodo ver os adultos rindo de mim quando eu falava o nome de alguém e, agora que estou no lugar deles, procuro não sair por aí irritando as criancinhas. Sim, porque elas têm sentimentos do tipo "ainda não corrompido", o que significa que não hesitam em demonstrar o que sentem sobre determinada coisa.

Confesso que quando vejo criancinhas fofinhas me dá vontade de perguntar qual é o meu nome, mas eu me controlo. E sabe, talvez essa vontade louca de ser reconhecida pelas crianças seja a forma inconsciente de expressar a saudade que sentimos da nossa infância. É, pode ser. Mas prefiro me expressar sem irritar quem admiro.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Quem dera tivesse dado certo...

- Cara, tive uma idéia pra melhorar esse mundo de merda em que a gente vive.
- Fala!
- Vamos inventar uma história que imponha um monte de regras. Se o pessoal seguir as regras, o mundo vai ficar uma beleza.
- Hum...
- Só que, pra dar certo, ninguém pode duvidar da história.
- É, uma boa. Mas como a gente faz pra ninguém duvidar? Não é chato ficar contando mentira não?
- Mentir pra consertar os estragos de outras mentiras? Não acho errado não.
- Pois é.
- A história tem que ser grande.
- Boa. Vou pegar lápis e papel.

História criada e divulgada, todo mundo acreditou. Porém, alguns mil anos depois, nenhuma regra era ainda imaculada. Matava-se e desrespeitava-se, dentre muitas outras coisas, sem limitações.
Espero o dia em que vão entender que acreditar e dizer aos outros que acredita não basta; é preciso cumprir.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O Comprovante

- Nêga, arrumei um emprego. – Hesitante, como sempre. Quando andava, o quadril e a cabeça chegavam antes que o resto do corpo.
- E quem dá trabalho prum mindingo como tu, Branco? – Debochada, como sempre. Ela tinha a pele mais clara que a dele, mas ele tinha uma micose na testa; por isso o apelido.
- Seu Expedito. Tava hoje no ponto e ele veio. Disse se eu quiria ajuda dele, eu disse que quiria uns trocado e ele disse que me dava um trabalho. Trabalho não, emprego. É coisa séria, Nêga.
- E tu disse que é burro? Que só sabe lê que mãe Bina ensinô?
- Disse.
- Trabalho de quê?
- Emprego, Nêga. É coisa séria. Em-pre-go de motorista.
- Tu não sabe dirigi!
- Ele disse preu ir pras aula, que ele paga. E disse preu levá, nesse lugar desse papel, minha identidade, cê-pê-éfe e comprovante de residência.
- Mas se tu mora na rua!
- Eu dô meu jeito, Nêga. Pára de “agrorar” queu dô meus jeito.

- É aqui queu entrego os documento pra dirigir?
- É. O senhor trouxe o comprovante de residência?
- Taquí.
- ...
- Aqui!
- Senhor, o comprovante de residência deve ser uma conta.
- E eu paguei por isso.
- Uma conta de luz, de gás, de água. Caixa de pizza não serve.
- Mas se entregaro na minha casa, é queu moro numa casa!
- ...
- ...
- Segurança!

Ele saiu antes que os homens chegassem. Devolveu a caixa de pizza à lixeira, e foi com seus trapos de volta para sua Nêga. Não é preciso dizer quem riu de quem.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Só tem zíper; eu quero botões

De repente eu aprendo o que é fazer parte do "mundo dos adultos". "Vaca e Frango" não passa mais na televisão, assim como também não passa aquele desenho dos cachorrinhos. Sem falar nas broncas por perder a hora de tomar os remédios, que ficam cada vez mais duras. Há algum tempo parei de me preocupar em inventar desculpas para não ir às aulas de ballet, para me preocupar em arrumar estágio - se é que eu quero ser jornalista.

No lugar onde eu estudo não existem inspetores, e certamente ninguém irá ligar para os meus pais caso eu chore depois de um tremendo tombo, até porque não choraria agora como antes.

Não estou reclamando não; é óbvio que eu gosto de muito de tudo isso, mas me parece que faltou uma transição. Dormi abraçada a um ursinho de pelúcia, e acordei no outro dia sem conhecer a personagem de desenho do brinquedinho do McLanche Feliz. E o que eu mais queria agora era ouvir a minha avó dizendo que eu estou "chiquepe", mas minha vida não tem botão review. E você não faz idéia do quanto sinto falta disso.
Sei lá se é porque faço parte da geração que vive numa casa equipada com televisão, vídeo cassete e computador desde que nasceu, mas sinto falta de botões na minha vida. Botão search, botão review, botão fast forward, e etc, etc, etc.
Daí, eu acabei de concluir que não posso sair por aí dizendo "e cá estava eu, pensando com meus botões", porque o que mais chega perto de um botão no meu corpo é a minha pinta de catapora no queixo. E lembram daquela musiquinha de professora malandra que quer calar os alunos? Se lembra, bom pra você, porque eu não lembro. Talvez fosse alguma coisa como "zip zip zap minha boca vou fechar". Só sei que a musiquinha era acompanhada por um gesto que fingia que a criança tinha um zíper nos lábios.

Bem, eu era uma dessas crianças, mas não quero mais esse zíper; o que eu quero são botões.

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